12 de outubro de 2026 · Monitoração · Leitura de 17 min · Por Me. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Arritmias no ECG durante a anestesia em cães e gatos: como reconhecer e quando tratar

O monitor apita, a frequência caiu para 48 e há ondas P sem QRS no traçado. É o α2-agonista, o opioide, um reflexo vagal — ou o começo de um problema sério? Quase toda arritmia perianestésica tem uma causa que se pode corrigir, e a maioria das bradicardias nem precisa de antiarrítmico. Mas algumas exigem ação em segundos. Este texto percorre os ritmos que o anestesista encontra na rotina de cães e gatos, o que costuma causá-los, o que a evidência diz sobre a conduta e as armadilhas — inclusive a da própria atropina.

Resumo

  • As arritmias perioperatórias mais comuns são taquicardia sinusal, bradicardia sinusal, bloqueio AV e arritmias ventriculares. A decisão de tratar depende da gravidade, do efeito na pressão arterial e do risco de piora — não do traçado isolado.
  • A bradicardia é a campeã: 36,3% de 1.281 anestesias em cães; 16,7% em gatos saudáveis, mais frequente com medetomidina que com acepromazina na pré-medicação. Arritmias propriamente ditas ficaram em torno de 2% em um hospital-escola.
  • α2-agonistas causam bradicardia e BAV de 1º e 2º grau como resposta reflexa à vasoconstrição. Somar atropina eleva a pressão, não melhora o débito e gera arritmias: com hipotensão, pense em atipamezol.
  • A atropina tem fase paradoxal: em cães com bradicardia vagal, todos tiveram BAV de 2º grau após a dose IV antes de a frequência subir. Espere o efeito completo (cerca de 1,5 min IV) antes de repetir.
  • Diante de VPC ou taquicardia ventricular, procure a causa primeiro (hipoxemia, hipercapnia, plano superficial, hipotensão, eletrólitos, dilatação-vólvulo gástrica, massa esplênica). Em cães, lidocaína IV; em gatos, muito mais cautela.
  • Bradicardia em gato obstruído é hipercalemia até prova em contrário — mesmo com um ECG que não "parece" de hipercalemia.
  • ECG não é pulso. Complexos organizados podem coexistir com ausência de débito (AESP). Palpe, meça a pressão e olhe o ETCO₂.

Por que o ECG é obrigatório na anestesia

As recomendações de monitoração do Colégio Americano de Anestesia e Analgesia Veterinária (ACVAA) colocam a consciência contínua da frequência e do ritmo cardíacos entre os itens obrigatórios, e citam o ECG em exibição contínua como o método para detectar arritmias. A versão de 2025 das diretrizes substituiu a de 2009 e organizou as recomendações em níveis básico, avançado e alternativo. As diretrizes da AAHA de 2020 também incluem a avaliação do ritmo cardíaco pelo ECG entre as medidas de redução de risco e listam as arritmias com risco de vida entre as condições a corrigir antes de anestesiar.

Evidências: ACVA. Recommendations for monitoring anesthetized veterinary patients, 2009. · Bailey K, et al. The ACVAA Small Animal Anesthesia and Sedation Monitoring Guidelines 2025. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2025;52(4):377-385. · Grubb T, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, 2020;56(2).

O motivo prático é que a frequência sozinha engana. O oxímetro e o Doppler contam pulsos; o ECG mostra como o coração está sendo ativado. Uma frequência de 60 bpm pode ser bradicardia sinusal tranquila pós-opioide, um BAV de 2º grau Mobitz I por α2-agonista ou um BAV de 3º grau com escape ventricular — três situações com condutas completamente diferentes.

Com que frequência acontecem

Num hospital-escola, ao longo de um ano, arritmias cardíacas foram registradas em 64 de 2.556 cães (2,5%) e em 12 de 683 gatos (1,8%). A bradicardia, contada à parte, é bem mais comum: num estudo retrospectivo de 1.281 anestesias em cães, apareceu em 36,3% (com hipotensão em 37,9%). Em 1.019 gatos saudáveis anestesiados para castração em clínica geral, a bradicardia (definida como FC < 90 bpm) ocorreu em 16,7%, a taquicardia (> 180 bpm) em 6,6% e arritmias em apenas 0,2%; a pré-medicação com medetomidina aumentou a chance de bradicardia em relação à acepromazina (OR 3,56), enquanto metadona e buprenorfina não diferiram.

Evidências: Gaynor JS, et al. JAAHA, 1999;35(1):13-17. · Redondo JI, et al. J Vet Med A, 2007;54(9):470-477. · Brown JF, Murison PJ. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2024;26(10).

Os números variam muito com a definição usada e a população estudada — estudos retrospectivos dependem do que foi anotado na ficha. Mas o recado é constante: a bradicardia é o achado de rotina, e as arritmias graves são raras no paciente saudável e concentradas em pacientes com doença de base.

Os 16 ritmos da ficha, num quadro

A tabela abaixo usa os mesmos nomes do campo de ECG da ficha anestésica do EasyVet. A coluna de causa e conduta resume o que está desenvolvido nas seções seguintes.

Ritmo (ficha)Como aparece no traçadoCausas típicas na anestesia e primeira conduta
SinusalToda P seguida de QRS, PR constante, intervalos regularesRitmo de referência. Anotar a FC basal para detectar tendências
Brad (bradicardia sinusal)Ritmo sinusal com FC abaixo do esperado para espécie e porteOpioides, α2-agonistas, plano profundo, hipotermia, reflexos vagais, hipercalemia. Tratar se houver hipotensão ou má perfusão
Taqui (taquicardia sinusal)Ritmo sinusal com FC alta (AAHA: > 180 bpm em gatos; > 150–190 bpm em cães grandes e pequenos)Dor, plano superficial, hipovolemia, hipoxemia, hipercapnia, hipertermia, fármacos (atropina, cetamina, dopamina). Tratar a causa
BAV 1GPR prolongado e constante; toda P conduzTônus vagal, α2-agonistas, opioides. Em geral só observação
BAV 2G (Mobitz I)PR que se alonga até uma P bloqueadaVagal, α2-agonistas, fase inicial da atropina. Avaliar pressão e perfusão
BAV 2G AV (Mobitz II)PR constante nos batimentos conduzidos, P bloqueada de repenteTambém pode surgir com α2-agonistas; no ensino clássico sugere lesão mais baixa no sistema de condução. Atenção redobrada
BAV 2G Avç (avançado)Duas ou mais P seguidas bloqueadas, PR fixo nos conduzidosBloqueio de alto grau: frequência ventricular cai muito. Avaliar pressão, considerar reverter fármacos e cronotrópicos
BAV 3GP e QRS independentes (dissociação AV), PR variável, escape regularDoença do sistema de condução; anticolinérgico costuma não resolver. Dopamina ou adrenalina; marca-passo temporário
Bloq sinusalPausa súbita sem P, de duração múltipla do ciclo P-PTônus vagal, reflexo oculocardíaco, α2-agonistas
AssistoliaLinha isoelétricaParada cardíaca: confirmar eletrodos e ganho, iniciar RCP
FVAtividade caótica, sem complexos identificáveisParada cardíaca com ritmo chocável: RCP e desfibrilação
BREQRS largo, positivo em DII, com entalhe; P normal precedendo cada QRSDistúrbio de condução intraventricular. Diferenciar de taquicardia ventricular
BRDQRS largo, com S profunda em DII; P normal precedendo cada QRSDistúrbio de condução intraventricular. Diferenciar de taquicardia ventricular
VPCQRS precoce, largo e bizarro, sem P relacionada, seguido de pausaHipoxemia, hipercapnia, catecolaminas, hipotensão, eletrólitos, dilatação-vólvulo gástrica, esplenopatia. Corrigir a causa
TVTrês ou mais complexos ventriculares seguidos, em alta frequênciaMesmas causas dos VPC; tratar quando há repercussão hemodinâmica. Lidocaína em cães
FlutterOndas atriais regulares "em serrote", condução AV variávelTaquiarritmia atrial; em geral associada a doença cardíaca estrutural. Controle da frequência, avaliação cardiológica
Evidência: Grubb T, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. JAAHA, 2020;56(2) (arritmias mais comuns, limiares de taquicardia e critérios de tratamento). As descrições morfológicas seguem o ensino clássico de eletrocardiografia.

Bradicardia e bloqueios AV: o território do vago

α2-agonistas: bradicardia que é reflexo, não falha

A dexmedetomidina e a medetomidina causam bradicardia, bradiarritmias (bloqueio AV de 1º e 2º grau, pausas sinusais), queda do débito cardíaco e hipertensão inicial. O mecanismo ajuda a entender a conduta: a vasoconstrição periférica eleva a pressão, e o barorreflexo derruba a frequência — somado à redução central do tônus simpático. Num estudo em cães anestesiados com isoflurano, 20 µg/kg IV de dexmedetomidina elevaram a pressão média em 67 mmHg em um minuto, enquanto a FC caiu de 129 para 60 bpm, o débito de 3,5 para 0,9 L/min e a resistência vascular sistêmica subiu cerca de seis vezes. A medetomidina em doses baixas (1–2 µg/kg IV) causou menos depressão cardiovascular que doses maiores.

Evidências: Bloor BC, et al. J Pharmacol Exp Ther, 1992;263(2):690-697. · Pypendop BH, Verstegen JP. Veterinary Surgery, 1998;27(6):612-622. · Sinclair MD. Canadian Veterinary Journal, 2003;44(11):885-897.

E o anticolinérgico? Em cinco cães que receberam dexmedetomidina 10 µg/kg IM, a FC caiu de 110 para cerca de 49 bpm em 15 minutos. Somar atropina 0,02 mg/kg IM elevou a pressão, mas o débito cardíaco caiu do mesmo jeito (de 5,1 para 2,1 L/min) — e só o grupo com atropina teve arritmias: bloqueio AV, VPC e bigeminismo ventricular. A conclusão dos autores é direta: a associação não é recomendada em cães. Estudos com medetomidina chegaram a resultados parecidos: atropina junto com o α2 gerou taquicardia com pressão média de 210 mmHg; dada antes, preveniu a bradicardia e o BAV de 2º grau, mas à custa de hipertensão e pulso alternante. A revisão de Sinclair resume: a pré-medicação anticolinérgica de rotina não demonstra melhora clara da função cardiovascular, aumenta o trabalho e o consumo de oxigênio do miocárdio, e o atipamezol é a escolha quando há complicação importante.

Evidências: Congdon JM, et al. JAVMA, 2011;239(1):81-89. · Alibhai HI, et al. Veterinary Record, 1996;138(1):11-13. · Ko JC, et al. JAVMA, 2001;218(1):52-58. · Short CE. Veterinary Record, 1991;129(14):310-313. · Sinclair MD, 2003.

O algoritmo de bradicardia das diretrizes de anestesia felina da AAFP segue essa lógica: se um α2-agonista foi administrado e a pressão está adequada (PAM > 60 ou PAS > 90 mmHg), a opção é atipamezol IM; anticolinérgico entra quando o plano é leve a moderado e a pressão não sustenta.

Evidência: Robertson SA, et al. 2018 AAFP Feline Anesthesia Guidelines. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2018;20(7):602-634 (algoritmo "Troubleshooting bradycardia").

Opioides: bradicardia vagal frequente e, em geral, benigna

Num ensaio com cães pré-medicados com acepromazina, a bradicardia (FC ≤ 70 bpm em cães até 15 kg e ≤ 60 bpm acima disso) ocorreu em 45% com morfina 0,5 mg/kg IM e em 50% com metadona 0,5 mg/kg IM, contra nenhum caso sem pré-medicação. Com fentanil em infusão sob isoflurano, a FC chegou a 42 ± 7 bpm na dose alta; o glicopirrolato normalizou a frequência e, nessa dose, o índice cardíaco e a oferta de oxigênio subiram acima do basal.

Evidências: Monteiro ER, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2016;43(1):27-34. · Williamson EJ, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2018;45(4):423-431.

Aqui a lógica é diferente da do α2: a bradicardia do opioide não é reflexo de vasoconstrição, e, quando derruba a pressão, o anticolinérgico costuma ser a resposta adequada. O RECOVER 2024 também menciona a naloxona para bradicardia associada a opioide.

A armadilha da atropina: piora antes de melhorar

Quem já deu atropina IV e viu aparecerem ondas P bloqueadas antes de a frequência subir viu o efeito paradoxal. Num estudo em cães com bradicardia vagal, atropina 0,02 mg/kg causou BAV de 2º grau em todos os cães por via IV e em 71% por via SC ou IM: a frequência atrial subiu antes de a condução AV melhorar. A frequência ventricular piorou em 62% dos experimentos (média de 16 bpm a menos), e em dois cães chegou a menos de 20 bpm por até 10 segundos. A fase paradoxal durou em média 1,4 min por via IV, 4,6 min IM e 9,1 min SC — e em dois cães, pela via SC, o bloqueio não se resolveu. Os autores concluem que a via IV é a melhor.

Evidência: Rishniw M, Tobias AH, Slinker BK. Characterization of chronotropic and dysrhythmogenic effects of atropine in dogs with bradycardia. American Journal of Veterinary Research, 1996;57(3):337-341.

Na prática: depois da atropina IV, espere um ou dois minutos antes de concluir que "não funcionou" e repetir. E esteja preparado para o outro extremo: em cães atropinizados, taquicardia sinusal e arritmias foram mais frequentes antes e depois da indução, com BAV de 2º grau antes da indução e VPC e bigeminismo depois.

Evidência: Muir WW. Effects of atropine on cardiac rate and rhythm in dogs. JAVMA, 1978;172(8):917-921.

Reflexos vagais: olho, face e vísceras

O reflexo oculocardíaco — queda súbita de pelo menos 30% na FC — ocorreu em 4,8% de 145 enucleações em cães. O bloqueio retrobulbar reduziu bastante a chance (OR 0,12); a pré-medicação anticolinérgica, não. Relatos de caso descrevem reflexos semelhantes na manipulação de fraturas faciais e da mandíbula, um deles sem resposta a três doses de atropina e resolvido com dopamina. A tração de vísceras e a oclusão da veia cava também podem provocar bradicardia reflexa. A primeira conduta é avisar o cirurgião e interromper o estímulo; a frequência costuma voltar.

Evidências: Vézina-Audette R, Steagall PVM, Gianotti G. JAVMA, 2019;255(4):454-458. · Bellini L, et al. Acta Veterinaria Scandinavica, 2018;60:64. · Davis J, et al. JVECC, 2017;27(2):243-249.

BAV de 3º grau: quando o anticolinérgico não é a resposta

No BAV total, átrios e ventrículos batem de forma independente, e a frequência é sustentada por um ritmo de escape que não depende do tônus vagal — por isso o anticolinérgico costuma não resolver. O algoritmo da AAFP, diante de BAV de 3º grau, pula o anticolinérgico: considerar interromper o procedimento e usar dopamina ou adrenalina para elevar a frequência. Em cães com BAV de alto grau ou total, o risco de morte súbita é alto nos primeiros seis meses, e o marca-passo se associou a maior sobrevida. Em gatos, o quadro é diferente: em 21 gatos com BAV de 3º grau, a frequência ficou entre 80 e 140 bpm (mediana 120), e o bloqueio muitas vezes não representava risco imediato à vida.

Evidências: Robertson SA, et al. AAFP, 2018. · Schrope DP, Kelch WJ. JAVMA, 2006;228(11):1710-1717. · Kellum HB, Stepien RL. JVIM, 2006;20(1):97-103.

Se o paciente com BAV de 3º grau precisa ser anestesiado — o caso típico é o próprio implante de marca-passo —, a estimulação externa transtorácica temporária até a fixação do eletrodo é prática corrente: foi usada em 43 de 57 cães numa série britânica e descrita como "margem de segurança essencial" numa série brasileira de 16 cães, sem mortes perioperatórias.

Evidências: Sanchis-Mora S, et al. Veterinary Record, 2014;175(12):303. · de Oliveira GMDS, et al. Frontiers in Veterinary Science, 2026;13:1754437.

Arritmias ventriculares: VPC e taquicardia ventricular

Procure a causa antes do antiarrítmico

Complexo ventricular prematuro na anestesia raramente é "doença do coração" de origem. As causas que o anestesista consegue corrigir vêm primeiro: hipoxemia, hipercapnia, plano superficial ou dor (catecolaminas), hipotensão, distúrbios eletrolíticos e ácido-base. A AAHA lembra que, diante de taquicardia, dor, hipoxemia, hipercapnia e hipovolemia devem ser descartadas antes de atribuir a alteração a um plano leve.

Duas doenças cirúrgicas merecem menção à parte, porque as arritmias ventriculares fazem parte do quadro:

Evidências: Muir WW. JAVMA, 1982;180(7):739-742. · Brourman JD, et al. JAVMA, 1996;208(11):1855-1858. · Schober KE, et al. JAVMA, 2002;221(3):381-388. · Michael AE, et al. JAVMA, 2023;261(12). · Marino DJ, et al. Veterinary Surgery, 1994;23(2):101-106.

Quando tratar e com o quê

Não há um número mágico. A AAHA coloca a decisão na gravidade, no efeito sobre a pressão arterial e no risco de deterioração. Na prática, VPC isolados com pressão estável pedem correção da causa e observação; VPC frequentes, multiformes ou em salvas, e a taquicardia ventricular que derruba a pressão, pedem tratamento. Em cães, a lidocaína IV é a primeira linha: uma revisão recente sobre anestesia em cães com doença mitral descreve bolus de 1–2 mg/kg IV seguido, se necessário, de infusão de 1,5–6 mg/kg/h (cerca de 25–100 µg/kg/min), deixando esmolol ou amiodarona para casos refratários.

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Levinzon I, Köster L, Vettorato E, Estrada AH. Journal of Small Animal Practice, 2026;67(8):663-679.

Na DVG, um estudo não randomizado administrou lidocaína (2 mg/kg IV e 50 µg/kg/min por 24 h) já na admissão e registrou arritmias em 12% dos cães, contra 38,3% em controles históricos, além de menos lesão renal aguda e menor tempo de internação. Um estudo posterior com o mesmo esquema, porém, encontrou mais depressão do estado mental, anorexia mais longa e internação mais prolongada nos cães tratados. A evidência é interessante, mas não definitiva.

Evidências: Bruchim Y, et al. JVECC, 2012;22(4):419-427. · Brunner A, et al. Frontiers in Veterinary Science, 2023;10:1287844.

Gatos são outra história. Em gatos anestesiados com isoflurano, a lidocaína IV causou mais depressão cardiovascular que uma dose equipotente do próprio isoflurano, e o isoflurano reduziu a depuração da lidocaína. O RECOVER 2024 não sugere lidocaína para FV refratária em gatos, preferindo amiodarona nesse cenário. Num gato com VPC, corrigir a causa vale ainda mais.

Evidências: Pypendop BH, Ilkiw JE. American Journal of Veterinary Research, 2005;66(4):661-668. · Thomasy SM, et al. AJVR, 2005;66(7):1162-1166. · Burkitt-Creedon JM, et al. RECOVER 2024. JVECC, 2024;34(S1):104-123.

Inalatórios e adrenalina

O halotano sensibiliza o miocárdio às catecolaminas; isoflurano e sevoflurano, bem menos. Em gatos, a dose arritmogênica de adrenalina foi de 19,0 µg/kg com sevoflurano e com isoflurano, contra 1,66 µg/kg com halotano — cerca de onze vezes menor. Em cães, o padrão foi parecido (isoflurano 30 a 51 µg/kg; halotano 4,6 a 6,7 µg/kg). Com o halotano fora de uso na maioria dos serviços, o recado atual é outro: o plano superficial e a dor, que liberam catecolaminas endógenas, continuam sendo gatilhos de VPC.

Evidências: Hikasa Y, et al. Research in Veterinary Science, 1996;60(2):134-137. · Pettifer G, Dyson D, McDonell W. Canadian Journal of Veterinary Research, 1997;61(3):221-226.

Hipercalemia: o gato obstruído e bradicárdico

Num gato macho com obstrução uretral, FC abaixo de 120 bpm associada a temperatura retal baixa (< 35–35,9 °C) previu hipercalemia grave (K⁺ ≥ 8,0 mmol/L) com especificidade de 98 a 100%. Hipercalemia grave apareceu em 12% dos gatos obstruídos, a maioria também com hipocalcemia ionizada e acidemia importante.

O ECG ajuda, mas não exclui. A sequência clássica dos livros (T apiculada, P achatada e ausente, QRS largo, ritmo sinoventricular) não se confirmou bem na clínica: em 37 cães e gatos com K⁺ > 5,5 mEq/L, 59% dos ECG eram normais ou tinham alterações não associadas classicamente à hipercalemia. Em 33 gatos obstruídos, 63,6% tinham alteração no ECG na admissão — sobretudo T apiculada e supradesnível de ST —, e todos os bradicárdicos tinham hipercalemia grave.

Evidências: Lee JA, Drobatz KJ. JVECC, 2006;16(2):104-111. · Lee JA, Drobatz KJ. JVECC, 2003;13(4):227-233. · Tag TL, Day TK. JVECC, 2008;18(1):61-67. · Canei DH, et al. Veterinary World, 2021;14(8):2002-2008.

A AAHA lista K⁺ acima de 6,0 mEq/L entre as condições a corrigir antes de anestesiar. O cálcio IV protege o miocárdio enquanto insulina com glicose desloca o potássio para dentro das células — e a desobstrução resolve a causa. Na ficha, um gato obstruído com "Brad" no ECG pede potássio dosado antes da indução, não atropina.

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Iimori Y, et al. Emergency management of hyperkalemia in dogs and cats – Part 2. Canadian Veterinary Journal, 2026;67(5):563-571.

Bloqueios de ramo e flutter

Nos bloqueios de ramo (BRD e BRE), o impulso nasce no nó sinusal e atravessa o nó AV normalmente; o atraso está na condução dentro dos ventrículos, o que alarga o QRS. A distinção que importa na anestesia é com a taquicardia ventricular, que também tem QRS largo: no bloqueio de ramo, cada QRS é precedido por uma onda P com PR constante. Num estudo com ECG de 12 derivações, os cães com bloqueio de ramo completo em ritmo sinusal — 18 com BRD e 18 com BRE — tinham ecocardiograma normal, o que mostra que o achado nem sempre indica doença estrutural; ainda assim, um bloqueio de ramo novo merece avaliação cardiológica.

Evidência: Perego M, Maffei A, Cavallini D, Santilli R. QRS complex configurations in 12-lead electrocardiograms of dogs with monomorphic ventricular tachycardia or complete bundle branch block. Frontiers in Veterinary Science, 2025;12:1579951.

O flutter atrial é uma taquiarritmia atrial com ondas regulares "em serrote" e condução AV variável; no ensino clássico, como a fibrilação atrial, costuma refletir doença cardíaca e pede controle da frequência e avaliação cardiológica. Um caso particular é a fibrilação atrial aguda de origem vagal durante a anestesia, em cães sem doença estrutural: num modelo experimental, a lidocaína 2 mg/kg IV converteu todos os 19 episódios para ritmo sinusal em menos de um minuto e meio, e a revisão de anestesia na doença mitral a coloca como primeira linha nesse cenário.

Evidências: Pariaut R, et al. JVIM, 2008;22(6):1274-1282. · Levinzon I, et al. JSAP, 2026.

Ritmos de parada: FV, assistolia e o ECG que mente

O RECOVER 2024 divide os ritmos de parada em chocáveis (fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso) e não chocáveis (assistolia e atividade elétrica sem pulso). Os pontos que o anestesista precisa saber de memória:

Evidência: Burkitt-Creedon JM, Boller M, Fletcher DJ, et al. 2024 RECOVER Guidelines: Updated treatment recommendations for CPR in dogs and cats. JVECC, 2024;34(S1):104-123 (consultado na tradução oficial em português da RECOVER Initiative).

Antes de declarar assistolia, confira o óbvio: eletrodos soltos, cabo desconectado e ganho baixo também produzem linha reta. E o inverso é o mais perigoso: na AESP, o monitor exibe complexos organizados, às vezes quase normais, sem que haja contração eficaz. É por isso que o RECOVER manda palpar o pulso durante a checagem de ritmo — sem pulso, a RCP continua, seja qual for o traçado. Na rotina, a mesma lógica vale fora da parada: a AAHA sugere procurar discrepância entre pulso e frequência no Doppler ou na curva do oxímetro, e o bisturi elétrico, os estimuladores de nervo e os aquecedores produzem artefatos que imitam arritmias.

Evidências: Burkitt-Creedon JM, et al. RECOVER 2024. · Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Dholakia U. Uses and limitations of ECG, Doppler, and capnograph. dvm360, abr. 2022.

Na rotina: um roteiro diante da arritmia

Importante: este texto discute o raciocínio de reconhecimento e conduta das arritmias perianestésicas e cita achados de estudos, revisões e diretrizes, não um protocolo para o seu paciente. Doses, limiares de frequência e condutas devem ser ajustados caso a caso, de acordo com espécie, porte, doença de base, fármacos em uso e a referência atualizada que o serviço adota. Os traçados de referência da ficha são desenhos didáticos e não substituem a interpretação do traçado real.

Conclusão

A maioria das arritmias da anestesia é bradicardia — e a maioria das bradicardias tem uma explicação farmacológica ou vagal que se resolve com ajuste, reversão ou paciência, não com antiarrítmico. O valor do ECG está em distinguir isso dos poucos ritmos que exigem ação imediata: o BAV de alto grau ou total que derruba a frequência ventricular, a taquicardia ventricular que derruba a pressão, a bradicardia do gato obstruído que é hipercalemia e os ritmos de parada. Saber que a atropina piora antes de melhorar, que ela não é a resposta para o α2-agonista com pressão alta nem para o BAV total, que a lidocaína não se transporta do cão para o gato e que o ECG não mostra pulso — isso transforma o traçado na tela em decisão clínica.

Perguntas frequentes

Quais as arritmias mais comuns durante a anestesia em cães e gatos?

As diretrizes da AAHA de 2020 listam taquicardia sinusal, bradicardia sinusal, bloqueio AV e arritmias ventriculares. A bradicardia é de longe a mais frequente: 36,3% de 1.281 anestesias em cães e 16,7% de 1.019 gatos saudáveis anestesiados para castração; arritmias propriamente ditas ficaram em cerca de 2,5% dos cães e 1,8% dos gatos em um hospital-escola.

Devo dar atropina para a bradicardia causada pela dexmedetomidina?

Em geral, não de rotina. A bradicardia do α2-agonista é em grande parte resposta reflexa à vasoconstrição. Em cães, somar atropina à dexmedetomidina elevou a pressão, não melhorou o débito cardíaco e foi o único grupo com arritmias; os autores não recomendam a associação. Com hipotensão ou má perfusão, a reversão com atipamezol costuma ser a opção mais lógica.

Por que a frequência cardíaca às vezes cai logo depois da atropina?

É a fase paradoxal. Em cães com bradicardia vagal, atropina 0,02 mg/kg causou BAV de 2º grau em todos os cães por via IV, e a frequência ventricular piorou em 62% dos experimentos. A fase durou em média 1,4 min IV, 4,6 min IM e 9,1 min SC. Espere o efeito completo antes de repetir a dose.

Quando tratar complexos ventriculares prematuros (VPC) durante a anestesia?

A decisão depende da gravidade, do efeito na pressão arterial e do risco de piora. Primeiro, corrija a causa: hipoxemia, hipercapnia, plano superficial ou dor, hipotensão, eletrólitos e doença de base. VPC frequentes, multiformes ou em salvas, e a taquicardia ventricular com repercussão hemodinâmica, costumam ser tratados; em cães, a lidocaína IV é a primeira linha.

A lidocaína pode ser usada como antiarrítmico em gatos?

Com muito mais cautela que em cães. Em gatos anestesiados com isoflurano, a lidocaína IV causou mais depressão cardiovascular que uma dose equipotente de isoflurano, e o isoflurano reduziu sua depuração. O RECOVER 2024 não sugere lidocaína para FV refratária em gatos, preferindo amiodarona 5 mg/kg.

ECG normal garante que o coração está bombeando?

Não. O ECG mostra atividade elétrica, não contração. Na atividade elétrica sem pulso, o monitor pode exibir complexos quase normais sem débito cardíaco. O RECOVER 2024 orienta palpar o pulso femoral na checagem do ritmo: sem pulso, a RCP continua. Na anestesia, pulso, pressão, curva do oxímetro e ETCO₂ são parceiros obrigatórios do ECG.

Referências

Registre o ritmo e consulte o traçado direto na ficha anestésica

No EasyVet, o campo de ECG da monitorização traz os 16 ritmos deste artigo — de sinusal a fibrilação ventricular, passando pelos quatro tipos de bloqueio AV, bloqueios de ramo, VPC, TV e flutter —, cada um com um traçado de referência que aparece ao passar o mouse sobre a opção. O ritmo fica registrado no tempo, ao lado da frequência, da pressão e do ETCO₂. Teste grátis por 30 dias, sem cartão de crédito.

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Sobre o autor: Me. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fontes principais: Grubb et al. (AAHA, 2020); Burkitt-Creedon et al. (RECOVER 2024, JVECC); Robertson et al. (AAFP, 2018); Bailey et al. (ACVAA, 2025); Rishniw et al. (AJVR, 1996); Congdon et al. (JAVMA, 2011); Lee & Drobatz (JVECC, 2006); Tag & Day (JVECC, 2008); Michael et al. (JAVMA, 2023) — lista completa acima.