9 de julho de 2026 · Protocolos · Leitura de 7 min

Como montar um protocolo de MPA (medicação pré-anestésica)

A medicação pré-anestésica (MPA) é a primeira decisão do plano anestésico e a que mais influencia o resto do procedimento: reduz o estresse do paciente, diminui a dose dos agentes de indução e manutenção, contribui para a analgesia e suaviza a recuperação. Montar um bom protocolo é menos sobre decorar doses e mais sobre raciocinar por objetivos.

O que a MPA precisa entregar

Raciocínio por estado físico (ASA)

A classificação ASA do paciente é o ponto de partida. Não existe protocolo único: o mesmo fármaco que é excelente para um cão jovem hígido pode ser perigoso para um cardiopata.

PerfilPrioridade na MPAClasses frequentemente úteis
Jovem, hígido (ASA I–II)Sedação eficaz + analgesiaAgonista α2 + opioide
CardiopataEstabilidade hemodinâmicaOpioide ± benzodiazepínico; cautela com α2
Geriátrico / debilitadoDoses reduzidas, titulaçãoOpioide + benzodiazepínico
Agressivo / muito estressadoSedação profunda e seguraAgonista α2 + opioide (± dissociativo)

As classes e o que cada uma agrega

Fenotiazínicos (ex.: acepromazina)

Boa sedação e efeito ansiolítico, sem analgesia. Causa vasodilatação (queda de pressão) e não tem antagonista — evite em pacientes hipovolêmicos, hipotensos ou instáveis. Efeito prolongado, útil quando se quer recuperação tranquila.

Agonistas α2 (ex.: dexmedetomidina, xilazina)

Sedação e analgesia potentes, dose-dependentes e reversíveis (atipamezol). O custo é hemodinâmico: bradicardia e vasoconstrição inicial. Excelentes em pacientes hígidos; usados com muita cautela — ou evitados — em cardiopatas.

Opioides (ex.: metadona, morfina, fentanil, butorfanol)

A base da analgesia. Boa estabilidade cardiovascular, o que os torna aliados nos pacientes de risco. A escolha depende da intensidade de dor esperada: agonistas plenos (metadona, morfina) para dor moderada a intensa; agonistas-antagonistas (butorfanol) para procedimentos pouco dolorosos ou apenas sedação.

Benzodiazepínicos (ex.: midazolam, diazepam)

Miorrelaxamento e efeito poupador de dose, com mínimo impacto cardiovascular — por isso brilham em geriátricos e cardiopatas. Sozinhos podem causar excitação paradoxal em pacientes jovens e hígidos; costumam ser associados a um opioide.

Associações comuns (a lógica das duplas)

Na prática, quase nunca se usa um fármaco isolado — a associação soma efeitos e permite reduzir a dose de cada um:

Importante: este texto discute o raciocínio de escolha das classes, não doses. Doses dependem de espécie, peso, estado físico, via de administração e do fármaco específico — devem ser calculadas caso a caso e conferidas em referência atualizada de farmacologia veterinária.

Erros comuns ao montar o protocolo

MPA e a ficha anestésica

O protocolo de MPA é o marco zero da ficha: horário, fármacos, doses e via precisam estar registrados com precisão, porque a resposta do paciente à indução e à manutenção só é interpretável à luz do que foi pré-medicado. Registrar isso à mão, no corre-corre da preparação, é onde muitos dados se perdem. Um sistema que padroniza o registro da MPA e calcula as doses por peso reduz erro e deixa o histórico pronto para o próximo procedimento.

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