9 de julho de 2026 (atualizado 17 de julho de 2026) · Protocolos · Leitura de 9 min · Por Me. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Como montar um protocolo de MPA (medicação pré-anestésica)

A medicação pré-anestésica (MPA) é a primeira decisão do plano anestésico e a que mais influencia o resto do procedimento: reduz o estresse do paciente, diminui a dose dos agentes de indução e manutenção, contribui para a analgesia e suaviza a recuperação. Montar um bom protocolo é menos sobre decorar doses e mais sobre raciocinar por objetivos — e sobre saber o que a literatura já mostrou sobre cada classe.

Resumo

  • A MPA precisa entregar sedação, analgesia preemptiva, redução de dose dos agentes seguintes e recuperação tranquila.
  • Dexmedetomidina IV (5 µg/kg) reduz a FC em 50–63% do basal, com bloqueio AV de 1º grau em todos os cães (Alvaides et al., 2008) — a escolha do agonista α2 depende do estado cardiovascular.
  • Atropina antes de dexmedetomidina é contraindicada: previne a bradicardia, mas agrava a hipertensão em gravidade e duração (Alvaides et al., 2008).
  • Maropitant reduz a CAM do sevoflurano em 24–30% sob estimulação visceral (Boscan et al., 2011) e a CAM-BAR em cerca de 15% (Fukui et al., 2017) — um adjunto com efeito analgésico mensurável, não só antiemético.
  • A escolha certa é sempre por estado físico (ASA), não por "receita padrão" copiada do paciente anterior.

O que a MPA precisa entregar

Raciocínio por estado físico (ASA)

A classificação ASA do paciente é o ponto de partida. Não existe protocolo único: o mesmo fármaco que é excelente para um cão jovem hígido pode ser perigoso para um cardiopata.

PerfilPrioridade na MPAClasses frequentemente úteis
Jovem, hígido (ASA I–II)Sedação eficaz + analgesiaAgonista α2 + opioide
CardiopataEstabilidade hemodinâmicaOpioide ± benzodiazepínico; cautela com α2
Geriátrico / debilitadoDoses reduzidas, titulaçãoOpioide + benzodiazepínico
Agressivo / muito estressadoSedação profunda e seguraAgonista α2 + opioide (± dissociativo)
Estado físico do paciente (ASA) Jovem, hígido (ASA I–II) Cardiopata Geriátrico / debilitado Agressivo / muito estressado
Agonista α2 + opioide
Opioide ± benzodiazepínico; cautela com α2
Opioide + benzodiazepínico
Agonista α2 + opioide (± dissociativo)
Classe de fármaco priorizada por perfil de paciente (mesmos dados da tabela acima).

As classes e o que a literatura mostra sobre cada uma

Fenotiazínicos (ex.: acepromazina)

Boa sedação e efeito ansiolítico, sem analgesia. Em cães, um estudo controlado mostrou que a acepromazina (0,05 mg/kg IV) não altera a frequência cardíaca, mas reduz significativamente a pressão arterial (pressão arterial média mínima registrada de 63 mmHg) — efeito de vasodilatação que não tem antagonista.

Evidência: Alvaides RK, Teixeira Neto FJ, Aguiar AJA, et al. Sedative and cardiorespiratory effects of acepromazine or atropine given before dexmedetomidine in dogs. Veterinary Record, 2008;162:852-856.

Evite em pacientes hipovolêmicos, hipotensos ou instáveis. Efeito prolongado, útil quando se quer recuperação tranquila.

Agonistas α2 (ex.: dexmedetomidina, xilazina)

Sedação e analgesia potentes, dose-dependentes e reversíveis (atipamezol). O mesmo estudo de Alvaides et al. (2008), com 5 µg/kg IV em cães hígidos, mediu o custo hemodinâmico com precisão: a dexmedetomidina reduziu a frequência cardíaca em 50 a 63% em relação ao basal e causou bradicardia (FC abaixo de 60 bpm), aumento do intervalo P-R e bloqueios atrioventriculares de primeiro grau em todos os cães, além de elevar transitoriamente a pressão arterial média por cerca de 20 minutos. O menor valor absoluto registrado no estudo foi de 25 bpm, dois minutos após a administração, no grupo que havia recebido acepromazina antes. A sedação profunda durou cerca de 30 minutos, e ao final de 60 minutos todos os cães já conseguiam ficar de pé e andar quando estimulados.

Excelentes em pacientes hígidos; usados com muita cautela — ou evitados — em cardiopatas, exatamente pelo efeito sobre a frequência cardíaca documentado acima.

Opioides (ex.: metadona, morfina, fentanil, butorfanol)

A base da analgesia. Boa estabilidade cardiovascular, o que os torna aliados nos pacientes de risco. A escolha depende da intensidade de dor esperada: agonistas plenos (metadona, morfina) para dor moderada a intensa; agonistas-antagonistas (butorfanol) para procedimentos pouco dolorosos ou apenas sedação.

Benzodiazepínicos (ex.: midazolam, diazepam)

Miorrelaxamento e efeito poupador de dose, com mínimo impacto cardiovascular — por isso brilham em geriátricos e cardiopatas. Sozinhos podem causar excitação paradoxal em pacientes jovens e hígidos; costumam ser associados a um opioide.

Antieméticos com efeito poupador de anestésico (maropitant)

Maropitant, antagonista de receptor NK-1, é conhecido como antiemético, mas dois ensaios controlados em cães anestesiados com sevoflurano mostram que ele também tem efeito poupador de anestésico. Sob estimulação visceral do ovário e do ligamento ovariano, maropitant reduziu a CAM (concentração alveolar mínima) de 2,12% para 1,61% na dose baixa (1 mg/kg + infusão de 30 µg/kg/h) — queda de 24% — e para 1,48% na dose alta (5 mg/kg + 150 µg/kg/h) — queda de 30%, ambas comparadas ao controle. O efeito do bloqueio de NK-1 é mais consistente sobre dor visceral, o que torna esse achado especialmente pertinente a procedimentos como a ovário-histerectomia.

Evidência: Boscan P, et al. Effect of maropitant, a neurokinin 1 receptor antagonist, on anesthetic requirements during noxious visceral stimulation of the ovary in dogs. American Journal of Veterinary Research, 2011;72(12):1576-1579.

Já a CAM-BAR (concentração alveolar mínima que bloqueia a resposta adrenérgica), medida em outro estudo sob estimulação elétrica, caiu de 3,37% para 2,88% com maropitant subcutâneo isolado (1 mg/kg). Carprofeno (4 mg/kg SC) teve efeito semelhante (2,96%), e a associação dos dois fármacos não foi superior a cada um isoladamente (2,81%) — ou seja, o efeito não foi aditivo.

Evidência: Fukui S, et al. Interaction between maropitant and carprofen on sparing of the minimum alveolar concentration for blunting adrenergic response (MAC-BAR) of sevoflurane in dogs. Journal of Veterinary Medical Science, 2017;79(3):502-508.

Na prática, isso reforça o maropitant como adjunto de MPA em protocolos que já preveem risco de êmese (opioides, procedimentos abdominais) — o benefício vai além de evitar vômito.

Associações comuns (a lógica das duplas)

Na prática, quase nunca se usa um fármaco isolado — a associação soma efeitos e permite reduzir a dose de cada um:

Importante: este texto discute o raciocínio de escolha das classes e cita achados de estudos controlados, não uma recomendação de dose para o seu paciente. Doses dependem de espécie, peso, estado físico, via de administração e do fármaco específico — devem ser calculadas caso a caso e conferidas em referência atualizada de farmacologia veterinária.

Anticolinérgico antes de agonista α2: a combinação a evitar

É uma tentação lógica e um erro documentado: se a dexmedetomidina causa bradicardia, por que não dar atropina antes para prevenir? Porque o problema hemodinâmico do agonista α2 não é a frequência cardíaca em si — é a vasoconstrição periférica que aumenta a pós-carga. A bradicardia é, em boa parte, uma resposta reflexa a essa hipertensão.

No estudo de Alvaides et al. (2008), a atropina (0,04 mg/kg IV, 15 minutos antes de 5 µg/kg de dexmedetomidina) de fato preveniu a bradicardia — mas aumentou a gravidade e a duração da hipertensão. Ao remover o freio reflexo sem remover a vasoconstrição, o resultado é um coração batendo mais rápido contra uma resistência periférica elevada, ou seja, mais trabalho miocárdico. A conclusão dos autores é explícita: a administração de atropina antes da dexmedetomidina é contraindicada, pela resposta hipertensiva grave.

O mesmo estudo testou a acepromazina como alternativa: ela não modificou substancialmente os efeitos cardiovasculares do agonista α2, além de reduzir levemente a magnitude e a duração do efeito pressor — e os escores de sedação não diferiram entre os grupos. Ou seja, associar acepromazina à dexmedetomidina não trouxe vantagem evidente sobre a dexmedetomidina isolada.

Evidência: Alvaides RK, Teixeira Neto FJ, Aguiar AJA, Campagnol D, Steagall PVM. Sedative and cardiorespiratory effects of acepromazine or atropine given before dexmedetomidine in dogs. Veterinary Record. 2008;162(26):852–856.

Erros comuns ao montar o protocolo

MPA e a ficha anestésica

O protocolo de MPA é o marco zero da ficha: horário, fármacos, doses e via precisam estar registrados com precisão, porque a resposta do paciente à indução e à manutenção só é interpretável à luz do que foi pré-medicado. Registrar isso à mão, no corre-corre da preparação, é onde muitos dados se perdem. Um sistema que padroniza o registro da MPA e calcula as doses por peso reduz erro e deixa o histórico pronto para o próximo procedimento — inclusive para ajustar a infusão contínua na manutenção, se o protocolo evoluir para TIVA.

Perguntas frequentes

Dexmedetomidina é contraindicada em cardiopatas?

Não é uma contraindicação absoluta, mas exige cautela: estudos mostram bradicardia consistente, com queda de 50 a 63% da frequência cardíaca em relação ao basal e bloqueio atrioventricular de 1º grau em todos os cães avaliados. Em cardiopatas, opioide associado a benzodiazepínico costuma ser a opção mais segura — e atropina não deve ser usada como "proteção" prévia, pois piora a hipertensão causada pelo agonista α2.

Acepromazina pode ser revertida se a pressão cair demais?

Não existe antagonista específico para acepromazina, diferente dos agonistas α2 (revertidos com atipamezol). Por isso, pacientes hipovolêmicos ou hipotensos costumam ser poupados dessa classe na MPA.

Vale a pena usar maropitant mesmo sem risco aparente de vômito?

Estudos mostram que o maropitant reduz a CAM do sevoflurano em até 30% sob estimulação visceral, um efeito poupador que vai além do controle de êmese — o que o torna um adjunto a considerar mesmo quando o risco de vômito não é o principal motivo.

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Sobre o autor: Me. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fontes citadas: Alvaides et al., Veterinary Record, 2008;162:852-856 · Boscan et al., American Journal of Veterinary Research, 2011;72(12):1576-1579 · Fukui et al., Journal of Veterinary Medical Science, 2017;79(3):502-508.