Como montar um protocolo de MPA (medicação pré-anestésica)
A medicação pré-anestésica (MPA) é a primeira decisão do plano anestésico e a que mais influencia o resto do procedimento: reduz o estresse do paciente, diminui a dose dos agentes de indução e manutenção, contribui para a analgesia e suaviza a recuperação. Montar um bom protocolo é menos sobre decorar doses e mais sobre raciocinar por objetivos — e sobre saber o que a literatura já mostrou sobre cada classe.
Resumo
- A MPA precisa entregar sedação, analgesia preemptiva, redução de dose dos agentes seguintes e recuperação tranquila.
- Dexmedetomidina IV (5 µg/kg) reduz a FC em 50–63% do basal, com bloqueio AV de 1º grau em todos os cães (Alvaides et al., 2008) — a escolha do agonista α2 depende do estado cardiovascular.
- Atropina antes de dexmedetomidina é contraindicada: previne a bradicardia, mas agrava a hipertensão em gravidade e duração (Alvaides et al., 2008).
- Maropitant reduz a CAM do sevoflurano em 24–30% sob estimulação visceral (Boscan et al., 2011) e a CAM-BAR em cerca de 15% (Fukui et al., 2017) — um adjunto com efeito analgésico mensurável, não só antiemético.
- A escolha certa é sempre por estado físico (ASA), não por "receita padrão" copiada do paciente anterior.
O que a MPA precisa entregar
- Sedação/ansiólise — um paciente calmo é contido com menos, induzido com menos e monitorado melhor.
- Analgesia preemptiva — tratar a dor antes do estímulo cirúrgico reduz a sensibilização central e o consumo de anestésicos.
- Redução das doses seguintes — boa MPA diminui a dose de indução e a concentração alveolar mínima (CAM) na manutenção, o que significa menos depressão cardiovascular.
- Recuperação tranquila — evitar disforia e delírio no despertar.
Raciocínio por estado físico (ASA)
A classificação ASA do paciente é o ponto de partida. Não existe protocolo único: o mesmo fármaco que é excelente para um cão jovem hígido pode ser perigoso para um cardiopata.
| Perfil | Prioridade na MPA | Classes frequentemente úteis |
|---|---|---|
| Jovem, hígido (ASA I–II) | Sedação eficaz + analgesia | Agonista α2 + opioide |
| Cardiopata | Estabilidade hemodinâmica | Opioide ± benzodiazepínico; cautela com α2 |
| Geriátrico / debilitado | Doses reduzidas, titulação | Opioide + benzodiazepínico |
| Agressivo / muito estressado | Sedação profunda e segura | Agonista α2 + opioide (± dissociativo) |
As classes e o que a literatura mostra sobre cada uma
Fenotiazínicos (ex.: acepromazina)
Boa sedação e efeito ansiolítico, sem analgesia. Em cães, um estudo controlado mostrou que a acepromazina (0,05 mg/kg IV) não altera a frequência cardíaca, mas reduz significativamente a pressão arterial (pressão arterial média mínima registrada de 63 mmHg) — efeito de vasodilatação que não tem antagonista.
Evite em pacientes hipovolêmicos, hipotensos ou instáveis. Efeito prolongado, útil quando se quer recuperação tranquila.
Agonistas α2 (ex.: dexmedetomidina, xilazina)
Sedação e analgesia potentes, dose-dependentes e reversíveis (atipamezol). O mesmo estudo de Alvaides et al. (2008), com 5 µg/kg IV em cães hígidos, mediu o custo hemodinâmico com precisão: a dexmedetomidina reduziu a frequência cardíaca em 50 a 63% em relação ao basal e causou bradicardia (FC abaixo de 60 bpm), aumento do intervalo P-R e bloqueios atrioventriculares de primeiro grau em todos os cães, além de elevar transitoriamente a pressão arterial média por cerca de 20 minutos. O menor valor absoluto registrado no estudo foi de 25 bpm, dois minutos após a administração, no grupo que havia recebido acepromazina antes. A sedação profunda durou cerca de 30 minutos, e ao final de 60 minutos todos os cães já conseguiam ficar de pé e andar quando estimulados.
Excelentes em pacientes hígidos; usados com muita cautela — ou evitados — em cardiopatas, exatamente pelo efeito sobre a frequência cardíaca documentado acima.
Opioides (ex.: metadona, morfina, fentanil, butorfanol)
A base da analgesia. Boa estabilidade cardiovascular, o que os torna aliados nos pacientes de risco. A escolha depende da intensidade de dor esperada: agonistas plenos (metadona, morfina) para dor moderada a intensa; agonistas-antagonistas (butorfanol) para procedimentos pouco dolorosos ou apenas sedação.
Benzodiazepínicos (ex.: midazolam, diazepam)
Miorrelaxamento e efeito poupador de dose, com mínimo impacto cardiovascular — por isso brilham em geriátricos e cardiopatas. Sozinhos podem causar excitação paradoxal em pacientes jovens e hígidos; costumam ser associados a um opioide.
Antieméticos com efeito poupador de anestésico (maropitant)
Maropitant, antagonista de receptor NK-1, é conhecido como antiemético, mas dois ensaios controlados em cães anestesiados com sevoflurano mostram que ele também tem efeito poupador de anestésico. Sob estimulação visceral do ovário e do ligamento ovariano, maropitant reduziu a CAM (concentração alveolar mínima) de 2,12% para 1,61% na dose baixa (1 mg/kg + infusão de 30 µg/kg/h) — queda de 24% — e para 1,48% na dose alta (5 mg/kg + 150 µg/kg/h) — queda de 30%, ambas comparadas ao controle. O efeito do bloqueio de NK-1 é mais consistente sobre dor visceral, o que torna esse achado especialmente pertinente a procedimentos como a ovário-histerectomia.
Já a CAM-BAR (concentração alveolar mínima que bloqueia a resposta adrenérgica), medida em outro estudo sob estimulação elétrica, caiu de 3,37% para 2,88% com maropitant subcutâneo isolado (1 mg/kg). Carprofeno (4 mg/kg SC) teve efeito semelhante (2,96%), e a associação dos dois fármacos não foi superior a cada um isoladamente (2,81%) — ou seja, o efeito não foi aditivo.
Na prática, isso reforça o maropitant como adjunto de MPA em protocolos que já preveem risco de êmese (opioides, procedimentos abdominais) — o benefício vai além de evitar vômito.
Associações comuns (a lógica das duplas)
Na prática, quase nunca se usa um fármaco isolado — a associação soma efeitos e permite reduzir a dose de cada um:
- Agonista α2 + opioide — sedação e analgesia potentes para pacientes hígidos. Clássico para castrações e procedimentos eletivos.
- Acepromazina + opioide — sedação com analgesia e recuperação suave, quando o paciente tolera a vasodilatação.
- Benzodiazepínico + opioide — a dupla "amiga do coração": mínima repercussão hemodinâmica, ideal para ASA III–IV.
Anticolinérgico antes de agonista α2: a combinação a evitar
É uma tentação lógica e um erro documentado: se a dexmedetomidina causa bradicardia, por que não dar atropina antes para prevenir? Porque o problema hemodinâmico do agonista α2 não é a frequência cardíaca em si — é a vasoconstrição periférica que aumenta a pós-carga. A bradicardia é, em boa parte, uma resposta reflexa a essa hipertensão.
No estudo de Alvaides et al. (2008), a atropina (0,04 mg/kg IV, 15 minutos antes de 5 µg/kg de dexmedetomidina) de fato preveniu a bradicardia — mas aumentou a gravidade e a duração da hipertensão. Ao remover o freio reflexo sem remover a vasoconstrição, o resultado é um coração batendo mais rápido contra uma resistência periférica elevada, ou seja, mais trabalho miocárdico. A conclusão dos autores é explícita: a administração de atropina antes da dexmedetomidina é contraindicada, pela resposta hipertensiva grave.
O mesmo estudo testou a acepromazina como alternativa: ela não modificou substancialmente os efeitos cardiovasculares do agonista α2, além de reduzir levemente a magnitude e a duração do efeito pressor — e os escores de sedação não diferiram entre os grupos. Ou seja, associar acepromazina à dexmedetomidina não trouxe vantagem evidente sobre a dexmedetomidina isolada.
Erros comuns ao montar o protocolo
- Copiar o protocolo do paciente anterior sem reavaliar o estado físico atual.
- Usar α2 em cardiopata "porque seda bem" — a sedação vem, mas às custas da frequência cardíaca e do débito cardíaco, como os dados acima mostram.
- Esquecer a analgesia porque "só vou fazer um procedimento rápido".
- Não registrar horário e dose da MPA — o que atrapalha a interpretação de tudo que vem depois na ficha anestésica, inclusive o tempo de recuperação esperado.
MPA e a ficha anestésica
O protocolo de MPA é o marco zero da ficha: horário, fármacos, doses e via precisam estar registrados com precisão, porque a resposta do paciente à indução e à manutenção só é interpretável à luz do que foi pré-medicado. Registrar isso à mão, no corre-corre da preparação, é onde muitos dados se perdem. Um sistema que padroniza o registro da MPA e calcula as doses por peso reduz erro e deixa o histórico pronto para o próximo procedimento — inclusive para ajustar a infusão contínua na manutenção, se o protocolo evoluir para TIVA.
Perguntas frequentes
Dexmedetomidina é contraindicada em cardiopatas?
Não é uma contraindicação absoluta, mas exige cautela: estudos mostram bradicardia consistente, com queda de 50 a 63% da frequência cardíaca em relação ao basal e bloqueio atrioventricular de 1º grau em todos os cães avaliados. Em cardiopatas, opioide associado a benzodiazepínico costuma ser a opção mais segura — e atropina não deve ser usada como "proteção" prévia, pois piora a hipertensão causada pelo agonista α2.
Acepromazina pode ser revertida se a pressão cair demais?
Não existe antagonista específico para acepromazina, diferente dos agonistas α2 (revertidos com atipamezol). Por isso, pacientes hipovolêmicos ou hipotensos costumam ser poupados dessa classe na MPA.
Vale a pena usar maropitant mesmo sem risco aparente de vômito?
Estudos mostram que o maropitant reduz a CAM do sevoflurano em até 30% sob estimulação visceral, um efeito poupador que vai além do controle de êmese — o que o torna um adjunto a considerar mesmo quando o risco de vômito não é o principal motivo.
Padronize seus protocolos com o EasyVet
Registre a MPA com cálculo de dose por peso, monte protocolos reutilizáveis e tenha o histórico anestésico de cada paciente sempre à mão. Teste grátis por 30 dias, sem cartão de crédito.
Começar teste grátis