12 de outubro de 2026 · Monitoração · Leitura de 17 min · Por Me. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Hipotensão intraoperatória em cães e gatos: causas e conduta

A PAM caiu para 52. O reflexo é abrir o soro. Mas e se o paciente estiver profundo demais, bradicárdico, ou se o monitor estiver lendo errado? A hipotensão é a complicação mais comum da anestesia em cães e gatos — e a resposta automática nem sempre é a certa. Este texto percorre o que conta como hipotensão, com que frequência ela aparece, por que acontece, quando a medida engana e a conduta por etapas, com a evidência de cada uma.

Resumo

  • Definição (AAHA 2020): sistólica < 80–90 mmHg, média < 60–70 mmHg ou diastólica < 40 mmHg. Em gatos, a AAFP sugere sistólica < 90 e média < 60 mmHg.
  • É frequente: 37,9% de 1.281 anestesias em cães; 22,6% de gatos saudáveis em castração. Acepromazina, dose alta de inalatório, anestesia longa, baixo peso e cirurgia abdominal aumentam o risco.
  • Pressão = débito cardíaco × resistência vascular. Antes de tratar, pergunte qual dos quatro mecanismos está em jogo: vasodilatação, bradicardia, baixo volume ou depressão do miocárdio.
  • Primeiro passo: o vaporizador. Em cães profundos com isoflurano, 80 mL/kg de Ringer não corrigiram a pressão; reduzir o isoflurano, sim. Anestesia balanceada poupa inalatório.
  • Bradicárdico e hipotenso? Anticolinérgico ou efedrina — exceto se a bradicardia for do α2-agonista.
  • Fluido funciona em quem responde a volume: 70–76% dos cães hipotensos em cirurgia responderam a 5–15 mL/kg. A variação de pressão de pulso (VPP) ajuda a prever quem vai responder.
  • Se persistir: dopamina 7–10 µg/kg/min ou noradrenalina; a efedrina tem efeito curto. E desconfie do número: o oscilométrico erra mais justamente na hipotensão.

O que conta como hipotensão

As diretrizes de anestesia e monitoração da AAHA de 2020 definem hipotensão como pressão arterial sistólica abaixo de 80–90 mmHg, média abaixo de 60–70 mmHg ou diastólica abaixo de 40 mmHg. As diretrizes de anestesia felina da AAFP (2018) sugerem, para gatos, sistólica abaixo de 90 mmHg e média abaixo de 60 mmHg, e lembram que a hipotensão é comum mesmo em gatos saudáveis em procedimentos curtos. Na prática dos especialistas, o número é parecido: numa pesquisa com 151 diplomados dos colégios americano e europeu de anestesiologia veterinária, a definição média foi PAM abaixo de 62 ± 4 mmHg ou sistólica abaixo de 87 ± 8 mmHg, e o tratamento começava por volta de PAM 61 ou sistólica 85 mmHg.

Evidências: Grubb T, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. JAAHA, 2020;56(2):59-82. · Robertson SA, et al. AAFP Feline Anesthesia Guidelines. JFMS, 2018;20(7):602-634. · Ruffato M, Novello L, Clark L. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2015;42(1):55-64.

O motivo dos limites em torno de 60 mmHg de PAM é clássico: abaixo disso, a capacidade de órgãos como rim e cérebro manterem o próprio fluxo (autorregulação) fica comprometida — o que segue o ensino de fisiologia mais que um estudo veterinário específico. As diretrizes de monitoração da ACVAA de 2025 substituíram as de 2009 e ampliaram a seção de monitoração da circulação.

Isso faz diferença no desfecho?

A evidência veterinária é observacional, mas aponta na mesma direção. Em 50 cães de clínica, 76% tiveram PAM abaixo de 60 mmHg, e a elevação de um marcador urinário de lesão tubular (GGT urinária/creatinina) após a anestesia, vista em 82% dos cães, foi explicada em 62% pela PAM mais baixa somada ao tempo abaixo de 50 mmHg. Em galgos mantidos experimentalmente com PAM abaixo de 40 mmHg por 60 minutos, houve dano tubular à histologia e elevação precoce de biomarcadores — com a creatinina ainda normal. Em cirurgias de risco, como colecistectomia por mucocele e cirurgia abdominal de emergência, a hipotensão intraoperatória se associou a maior mortalidade.

Evidências: Chen BW, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2025;52(3):311-319. · Davis J, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2022;49(4):344-353. · Ullal TV, et al. JAVMA, 2023;261(12). · Fages A, et al. Veterinary Sciences, 2021;8(10):209.

Em humanos, os dados são mais robustos. Em 33.330 cirurgias não cardíacas, o risco de lesão renal aguda e de lesão miocárdica aumentou com PAM abaixo de 55 mmHg, e cresceu com o tempo de exposição; outro estudo grande mostrou o mesmo com PAM abaixo de 65 mmHg. Uma revisão recente nota que ensaios com mais de 13 mil pacientes não mostraram vantagem em mirar pressões mais altas que cerca de 65 mmHg. A tradução para cães e gatos é limitada, mas o recado é razoável: profundidade e duração da hipotensão importam.

Evidências: Walsh M, et al. Anesthesiology, 2013;119(3):507-515. · Salmasi V, et al. Anesthesiology, 2017;126(1):47-65. · Joosten A, et al. Intensive Care Medicine, 2026;52(3):500-511.

Com que frequência acontece e quem está em risco

EstudoPopulaçãoHipotensão
Redondo et al., 20071.281 anestesias em cães (retrospectivo)37,9%
Gaynor et al., 19992.556 cães e 683 gatos, hospital-escola7% dos cães e 8,5% dos gatos
Brown e Murison, 20241.019 gatos saudáveis em castração22,6% (a complicação mais comum)
Iizuka et al., 2013Cães, PAM < 60 por mais de 5 min65,3% com isoflurano-fentanil × 27,6% com propofol-fentanil
Costa et al., 2015Cães jovens em castração eletiva, pressão invasiva49% e 71% em duas coortes
Mignini et al., 2026390 cães, PAM ≤ 60 em 3 leituras seguidas18,5%
Evidências: Redondo JI, et al. J Vet Med A, 2007;54(9):470-477. · Gaynor JS, et al. JAAHA, 1999;35(1):13-17. · Brown JF, Murison PJ. JFMS, 2024;26(10). · Iizuka T, et al. The Veterinary Journal, 2013;198(1):289-291. · Costa RS, et al. Australian Veterinary Journal, 2015;93(4):99-104. · Mignini B, et al. Frontiers in Veterinary Science, 2026;13:1846419.

A variação enorme reflete definição, método de medida e população — com pressão invasiva e definição rígida, a hipotensão aparece em metade dos cães jovens saudáveis. Os fatores de risco que se repetem:

Evidências: Martin-Flores M, et al. JAVMA, 2019;255(2):193-199. · Brown JF, Murison PJ, 2024. · Robertson SA, et al. AAFP, 2018. · Iizuka T, et al., 2013. · Costa RS, et al., 2015. · Mignini B, et al., 2026. · Parreño CM, Giles D, Corletto F. Scientific Reports, 2025;15:18009.

Por que a pressão cai: os quatro mecanismos

A pressão arterial é o produto do débito cardíaco pela resistência vascular sistêmica, e o débito é o produto da frequência cardíaca pelo volume sistólico. Uma revisão recente em anestesia humana organiza a hipotensão intraoperatória em quatro "endotipos" — e essa divisão serve muito bem para cães e gatos, porque cada um pede uma resposta diferente:

MecanismoCausas típicas na anestesiaResposta mais lógica
VasodilataçãoInalatório em dose alta, acepromazina, propofol, epidural com anestésico local, sepseReduzir o inalatório; anestesia balanceada; vasoconstritor se persistir
BradicardiaOpioides, α2-agonistas, reflexos vagais, hipotermia, hipercalemiaAnticolinérgico (exceto α2), interromper o estímulo vagal, reverter fármaco
Baixo volume (pré-carga)Desidratação, hemorragia, jejum, ventilação com pressão positivaProva de fluido, de preferência guiada por índice dinâmico
Depressão do miocárdioInalatório em dose alta, cardiopatia, acidose, hipotermiaReduzir o inalatório; inotrópico (dopamina, dobutamina)
Evidências: Joosten A, et al. Intensive Care Medicine, 2026 (os quatro endotipos). · Grubb T, et al. AAHA, 2020 (inotrópico para baixa contratilidade, vasoconstritor para vasodilatação excessiva). As listas de causas seguem o ensino clássico de anestesiologia.

O inalatório aparece em duas linhas, e não por acaso. Em cães, o sevoflurano reduziu de forma progressiva a resistência vascular e as pressões sistólica, média e diastólica entre 1 e 2 CAM, com queda discreta do volume sistólico — com efeitos semelhantes aos do isoflurano. É o motivo de quase toda conduta começar pelo vaporizador.

Evidência: Mutoh T, et al. Cardiopulmonary effects of sevoflurane, compared with halothane, enflurane, and isoflurane, in dogs. American Journal of Veterinary Research, 1997;58(8):885-890.

Antes de tratar: o número está certo?

O oscilométrico é o método mais usado, e é justamente na hipotensão que ele mais erra — geralmente para cima, o que faz a hipotensão passar despercebida.

Evidências: Shih A, et al. JVECC, 2010;20(3):313-318. · Sedgwick S, et al. Research in Veterinary Science, 2021;135:162-166. · Bourazak LA, Hofmeister EH. JAVMA, 2018;253(11):1433-1438. · Grandy JL, et al. AJVR, 1992;53(7):1166-1169. · da Cunha AF, et al. JVECC, 2014;24(3):272-278. · Cerejo SA, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2020;47(2):191-199. · Acierno MJ, et al. JAVMA, 2010;237(4):402-406. · Cerejo SA, et al. JVECC, 2017;27(4):409-418.

O que fazer com isso: manguito com largura de 30 a 40% da circunferência do membro, na altura da base do coração (o consenso da ACVIM corrige 0,8 mmHg por centímetro de diferença de altura); valorizar a tendência mais que a leitura isolada; repetir a medida que destoa; e, em gatos, lembrar que o Doppler dá a sistólica, não a média. Um estudo sugere que, com o oscilométrico, um alvo de PAM de 70 mmHg protege melhor que o de 60. Em pacientes instáveis ou de alto risco, a pressão invasiva é o padrão.

Evidências: Acierno MJ, et al. ACVIM consensus statement on systemic hypertension. JVIM, 2018;32(6):1803-1822. · Sedgwick S, et al., 2021.

Conduta por etapas

A AAHA de 2020 e as diretrizes de fluidoterapia da AAHA de 2024 seguem a mesma ordem: ajustar a anestesia, corrigir a frequência, dar volume com critério e, se persistir, usar fármacos vasoativos.

1. Reduza o inalatório — e substitua por analgesia

As diretrizes de fluidoterapia de 2024 começam pelo vaporizador: pequenas reduções podem ter efeito importante na pressão. O experimento que melhor ilustra isso foi feito em cães saudáveis com isoflurano expirado de 3%: 1 mL/kg/min de cristaloide por 45 minutos não melhorou pressão, débito nem volume sistólico — só diluiu o sangue. A pressão voltou quando o isoflurano expirado caiu para 1,6%.

Evidências: Pardo M, et al. 2024 AAHA Fluid Therapy Guidelines for Dogs and Cats. JAAHA, 2024;60(4):131-163. · Valverde A, et al. Canadian Journal of Veterinary Research, 2012;76(2):99-108.

Para reduzir o inalatório sem superficializar o paciente, a AAHA recomenda técnicas balanceadas: mais opioide, bloqueio locorregional ou infusões. Em cães, a infusão de morfina, lidocaína e cetamina (MLK) reduziu a CAM do isoflurano em 45% sem efeitos hemodinâmicos adversos; com fentanil no lugar da morfina, a redução clínica chegou a 97%. Em gatos, há um porém: a lidocaína reduziu a necessidade de isoflurano, mas com mais depressão cardiovascular que uma dose equivalente do próprio isoflurano, e os autores não a recomendam para esse fim. A anestesia intravenosa com propofol e fentanil teve menos hipotensão que isoflurano e fentanil em cães (27,6% × 65,3%).

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Muir WW, Wiese AJ, March PA. AJVR, 2003;64(9):1155-1160. · Aguado D, Benito J, Gómez de Segura IA. The Veterinary Journal, 2011;189(1):63-66. · Pypendop BH, Ilkiw JE. AJVR, 2005;66(4):661-668. · Iizuka T, et al., 2013.

2. Olhe a frequência cardíaca

Se o paciente está hipotenso e bradicárdico, a AAHA recomenda anticolinérgico (atropina ou glicopirrolato) ou efedrina. A evidência apoia: em cães com fentanil, a redução de CAM só trouxe ganho cardiovascular quando a bradicardia foi prevenida com glicopirrolato (FC, PAM e índice cardíaco subiram); em cães com FC entre 65 e 85 bpm, glicopirrolato 0,01 mg/kg IV elevou as pressões sistólica, média e diastólica. Cães pequenos (até 10 kg) precisaram repetir a dose com mais frequência.

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Machado ML, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2022;49(1):26-35. · Williamson EJ, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2018;45(4):423-431. · Dyson DH, James-Davies R. Canadian Veterinary Journal, 1999;40(5):327-331.

A exceção é a bradicardia do α2-agonista. Com dexmedetomidina, a atropina elevou a pressão, mas não melhorou o débito cardíaco e provocou arritmias; dada antes, piorou e prolongou a hipertensão. Os detalhes — incluindo a fase paradoxal da atropina — estão em Arritmias no ECG durante a anestesia.

Evidências: Congdon JM, et al. JAVMA, 2011;239(1):81-89. · Alvaides RK, et al. Veterinary Record, 2008;162(26):852-856.

3. Fluido: para quem responde a volume

As doses de referência são da AAHA 2020: bolus de cristaloide de 5 a 20 mL/kg, conforme a necessidade, e/ou coloide de 1 a 5 mL/kg; a AAFP sugere 5 a 15 mL/kg de cristaloide em gatos. As diretrizes de fluidoterapia de 2024 fazem duas ressalvas: nem toda hipotensão se corrige com fluido, e acima de 20 mL/kg numa mesma anestesia é preciso reavaliar. Em doença renal avançada (IRIS 3–4), não se deve tentar corrigir a hipotensão com taxas excessivas de fluido. A taxa de manutenção de partida é de 5 mL/kg/h em cães e 3–5 mL/kg/h em gatos.

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Robertson SA, et al. AAFP, 2018. · Pardo M, et al. AAHA, 2024.

Por que o fluido às vezes não funciona? Porque o mecanismo da hipotensão não era volume. Em cães saudáveis com hipotensão por isoflurano, até 80 mL/kg de Ringer lactato não elevaram a pressão sistólica em nenhum cão (o hidroxietilamido elevou em 4 de 6). Com acepromazina, 20 mL/kg de Ringer não aumentaram o débito e chegaram a piorar a hipotensão no início; a acepromazina atenuou o efeito de todos os tratamentos testados.

Evidências: Aarnes TK, et al. AJVR, 2009;70(11):1345-1353. · Sinclair MD, Dyson DH. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2012;39(6):563-573.

Na clínica, o cenário é outro: em cães hipotensos em cirurgia ortopédica, 76% aumentaram o débito em pelo menos 15% com 15 mL/kg de Ringer em 15 minutos; em outro estudo, 70% responderam a 5 mL/kg. E dá para prever quem responde: em cães sob ventilação mecânica, a variação de pressão de pulso (VPP) acima de cerca de 15% identificou os respondedores com especificidade de 96 a 100%, muito melhor que a pressão venosa central. Uma metanálise recente confirmou a boa acurácia da VPP (sensibilidade 0,88, especificidade 0,97) e, um pouco menor, do índice de variabilidade pletismográfica (PVI) — com a ressalva de alto risco de viés nos estudos. A VPP só vale com ventilação controlada e tórax fechado.

Evidências: Fantoni DT, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2017;44(4):710-718. · Gonçalves LA, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2020;47(1):28-37. · Sano H, et al. JVECC, 2018;28(4):301-309. · Donati PA, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2026;53(1):101150. · Pardo M, et al. AAHA, 2024.

4. Se persistir: inotrópico ou vasopressor

A AAHA orienta inotrópico quando o problema é contratilidade e vasoconstritor quando é vasodilatação excessiva. As doses da tabela vêm da figura de suporte pressórico das diretrizes de 2020; a coluna de evidência resume os estudos em cães e gatos anestesiados.

Fármaco (AAHA 2020, IV)AçãoO que os estudos mostram
Efedrina 0,1–0,2 mg/kg em bolusInotrópico e vasoconstritor indireto; taquifilaxiaCães: aumentou débito e oferta de O₂, mas a PAM subiu por menos de 5 min; segundo bolus não acrescentou. Em cães, a FC caiu após efedrina IV, e a atropina prévia aumentou a chance de atingir PAM > 70; em gatos, não
Dopamina 1–15 µg/kg/minInotrópico (vasoconstritor em doses maiores)Cães: sem efeito a 5 µg/kg/min; eficaz a 7–10 µg/kg/min (7 sugerido como dose-guia). Gatos: a mais útil entre quatro fármacos; elevou pressão e débito em gatos com cardiomiopatia hipertrófica
Dobutamina 1–10 µg/kg/minInotrópicoCães: aumentou o débito com pouca mudança na pressão. Gatos: não elevou a PAM
Noradrenalina 0,05–0,3 µg/kg/minPrincipalmente vasoconstritorCães: elevou PAM, débito e oferta de O₂ de forma dose-dependente; foi o único a atingir a meta em hipotensão grave por isoflurano (média de 0,44 µg/kg/min)
Fenilefrina 0,3–1 µg/kg/min ou 1–3 µg/kg em bolusVasoconstritorCães com acepromazina: elevou a PAM tanto quanto a noradrenalina, mas reduzindo o débito. Gatos: elevou a pressão sem aumentar o débito
Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020 (doses e ações). · Chen HC, Sinclair MD, Dyson DH. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2007;34(5):301-311. · Seki D, et al. JAVMA, 2025;263(11):1399-1405. · Rosati M, et al. AJVR, 2007;68(5):483-494. · Dyson DH, Sinclair MD. AJVR, 2006;67(7):1121-1130. · Kojima K, et al. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2021;48(5):654-662. · Henao-Guerrero N, et al. Animals, 2023;13(16):2674. · Cannarozzo CJ, et al. AJVR, 2023;84(11). · Pascoe PJ, Ilkiw JE, Pypendop BH. AJVR, 2006;67(9):1491-1499. · Wiese AJ, et al. AJVR, 2012;73(6):908-916.

Dois pontos práticos. A efedrina é ótima para "ganhar tempo" enquanto se ajusta o plano, mas não sustenta a pressão sozinha. E o vasoconstritor puro (fenilefrina) sobe o número às custas do débito — útil quando o problema é vasodilatação, ruim quando o coração já está deprimido. Na dúvida sobre o mecanismo, dopamina e noradrenalina têm a melhor relação entre pressão e débito nos estudos citados.

5. Se nada funcionar

A AAHA lista o que procurar quando a hipotensão persiste: hipoglicemia, hipotermia, anemia ou hipoproteinemia e distúrbios eletrolíticos. Vale acrescentar o que a própria cirurgia pode estar fazendo — hemorragia não vista, compressão da veia cava, tração de vísceras —, e conversar com o cirurgião. A AAFP, para gatos, sugere considerar encerrar a anestesia se não houver resposta.

Evidências: Grubb T, et al. AAHA, 2020. · Robertson SA, et al. AAFP, 2018.

Na rotina: um roteiro diante da PAM baixa

Importante: este texto discute o raciocínio diante da hipotensão intraoperatória e cita achados de estudos, revisões e diretrizes, não um protocolo para o seu paciente. Muitos dos estudos citados foram feitos em poucos animais saudáveis e em condições experimentais. Doses, metas de pressão e condutas devem ser ajustadas caso a caso, de acordo com espécie, porte, doença de base, fármacos em uso e a referência atualizada que o serviço adota.

Conclusão

A hipotensão é tão comum que corre o risco de ser tratada no automático — e o automático costuma ser o soro. A evidência mostra que a ordem importa: primeiro confirmar que o número é real, depois reduzir o inalatório e reforçar a analgesia, corrigir a bradicardia (com o cuidado do α2-agonista), dar volume a quem responde a volume e, só então, recorrer a vasoativos escolhidos pelo mecanismo. Profundidade e duração da hipotensão parecem pesar no rim e no desfecho — o que faz da monitoração contínua, e do registro dela, parte do tratamento.

Perguntas frequentes

Qual pressão é considerada hipotensão na anestesia de cães e gatos?

Para a AAHA (2020): sistólica abaixo de 80–90 mmHg, média abaixo de 60–70 mmHg ou diastólica abaixo de 40 mmHg. Para gatos, a AAFP (2018) sugere sistólica abaixo de 90 e média abaixo de 60 mmHg. Numa pesquisa com 151 especialistas, a definição média foi PAM abaixo de 62 ou sistólica abaixo de 87 mmHg.

Fazer bolus de soro resolve a hipotensão na anestesia?

Nem sempre. Em cães profundos com isoflurano, até 80 mL/kg de Ringer não elevaram a pressão sistólica; reduzir o isoflurano, sim. Com acepromazina, 20 mL/kg chegaram a piorar a hipotensão no início. Em cães hipotensos na clínica, 70 a 76% responderam a 5–15 mL/kg. Reduza o inalatório primeiro e dê volume a quem tem indício de responder a volume.

Dopamina, efedrina ou noradrenalina: qual usar na hipotensão anestésica?

Depende do mecanismo. Em cães, a efedrina 0,2 mg/kg elevou a PAM por menos de 5 minutos; a dopamina foi eficaz a 7–10 µg/kg/min; a dobutamina elevou o débito sem corrigir bem a pressão; e, em hipotensão grave por isoflurano, só a noradrenalina atingiu a meta. Em gatos, a dopamina elevou pressão e débito, e a fenilefrina, só a pressão.

O monitor oscilométrico é confiável quando a pressão está baixa?

É quando mais erra. Em cães com hipotensão por hemorragia, superestimou a PAM em 24 mmHg; em outro estudo, a PAM oscilométrica abaixo de 60 detectou só 40% das hipotensões reais (68% com o corte de 70). Manguito de 30 a 40% da circunferência do membro, atenção à tendência e, nos pacientes de risco, pressão invasiva.

Atropina ajuda na hipotensão durante a anestesia?

Quando há bradicardia que não foi causada por α2-agonista, sim: a AAHA recomenda anticolinérgico ou efedrina no paciente hipotenso e bradicárdico, e em cães com fentanil o ganho cardiovascular só veio com a correção da bradicardia. Com dexmedetomidina, a atropina eleva a pressão sem melhorar o débito e provoca arritmias.

A hipotensão durante a anestesia causa lesão renal em cães?

Há sinais de que pode contribuir: em cães de clínica, a elevação de um marcador urinário de lesão tubular foi explicada em boa parte pela PAM mais baixa e pelo tempo abaixo de 50 mmHg, e na hipotensão grave experimental houve dano tubular com creatinina normal. São estudos observacionais ou experimentais; em humanos, a associação com lesão renal e miocárdica, proporcional ao tempo, está bem documentada.

Referências

A ficha que avisa a PAM baixa — e lembra a conduta

No EasyVet, quando a PAM registrada fica abaixo de 65 mmHg (ou a sistólica sai da faixa esperada para a espécie), a ficha anestésica sinaliza o valor e sugere a sequência: reduzir o vaporizador, bolus de 5–20 mL/kg, anticolinérgico se bradicárdico, inotrópico ou vasopressor se persistir. Cada medida fica no tempo, ao lado do vaporizador, das infusões e da frequência — o que deixa ver quanto tempo o paciente ficou hipotenso e o que funcionou. Teste grátis por 30 dias, sem cartão de crédito.

Começar teste grátis

Sobre o autor: Me. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fontes principais: Grubb et al. (AAHA, 2020); Pardo et al. (AAHA Fluid Therapy, 2024); Robertson et al. (AAFP, 2018); Valverde et al. (CJVR, 2012); Fantoni et al. (VAA, 2017); Chen et al. (VAA, 2007); Henao-Guerrero et al. (Animals, 2023); Sedgwick et al. (RVS, 2021) — lista completa acima.