Citrato de maropitant e analgesia visceral: ajuda ou não?
O maropitant entrou na rotina como antiemético, mas a literatura anestésica o transformou numa pergunta: se ele bloqueia a substância P, e a substância P é um mediador importante da dor visceral, ele funciona como analgésico? A resposta honesta não é "sim" nem "não". Há um efeito poupador de anestésico real e reproduzido, e há uma metanálise que não encontrou efeito sobre a dor; há ensaios clínicos que mostram menos dor e outros que não mostram nada, quase todos no mesmo cenário (cirurgia do ovário em fêmeas jovens saudáveis). Este texto percorre tudo isso, estudo por estudo, e separa o que está demonstrado do que ainda é hipótese.
Resumo
- A base teórica é boa: mais de 80% dos aferentes viscerais contêm substância P, contra 21% dos somáticos, e o maropitant bloqueia o receptor NK-1 dessa substância na medula e no encéfalo.
- A única metanálise (2020; 14 estudos, 128 animais tratados e 127 controles) separa duas coisas: efeito poupador de anestésico significativo (diferença média padronizada −0,92; IC95% −1,30 a −0,54), mas sem efeito sobre a dor (0,06; IC95% −0,37 a 0,48).
- Os estudos de CAM são consistentes: 24% de redução em cães e 15% em gatos sob estimulação do ovário. Mas o efeito aparece também com estímulo somático (−16%), não aparece por via epidural, e em um ensaio de 2025 não houve relação dose-resposta.
- Os ensaios clínicos se dividem. A favor: menos dor ou menos resgate com maropitant em infusão contínua (gatas), em mastectomia (como adjunto de cetamina e lidocaína), contra meloxicam e contra metadona. Neutros: dose única SC em gatas, infusão em cães com morfina e acepromazina, e um protocolo com metadona e meloxicam em que o maropitant só reduziu o isoflurano.
- Há um custo prático: o maropitant IV pode derrubar a pressão arterial (PAM de 54 ± 6 mmHg com acepromazina em beagles), a aplicação SC dói e a indicação analgésica é extrabula.
- Conclusão prática: ajuda de forma inconsistente e, quando ajuda, é pouco; é adjunto da analgesia multimodal, não substitui opioide, bloqueio locorregional ou AINE. Não encontrei ensaio publicado em doença visceral (pancreatite, obstrução, gastroenterite) com desfecho analgésico.
Por que se pensou em maropitant como analgésico
O maropitant é um antagonista seletivo do receptor de neurocinina 1 (NK-1), o receptor da substância P no sistema nervoso central. A indicação em bula é no vômito e no enjoo de movimento, mas o mesmo receptor aparece em vias de dor: já foi identificado no corno dorsal da medula de gatos e em vísceras de ratos (esôfago, cólon, bexiga). O dado que sustenta a hipótese "visceral" é quantitativo: mais de 80% dos aferentes viscerais contêm substância P, contra apenas 21% dos aferentes somáticos. Se a dor visceral depende mais dessa via, bloquear o NK-1 deveria ajudar mais ali do que na dor cutânea.
É uma hipótese plausível, e por isso foi testada. Vale, porém, guardar uma distinção que o restante do texto vai precisar: plausível não é demonstrado, e "reduz a CAM" não é o mesmo que "alivia a dor do paciente".
O que a metanálise já disse
Antes de olhar estudo por estudo, vale começar pelo resumo que a literatura já fez. Em 2020, uma revisão sistemática com metanálise buscou, em Medline, PubMed, ScienceDirect e Web of Science, os relatos sobre os efeitos anti-inflamatório, analgésico e poupador de anestésico do maropitant. Entraram 14 estudos, com 128 animais que receberam maropitant e 127 controles. Os resultados:
- Efeito poupador de anestésico: significativo — diferença média padronizada (DMP) de −0,92 (IC95% −1,30 a −0,54; P < 0,00001), para isoflurano e sevoflurano, em vários procedimentos cirúrgicos.
- Dor: sem efeito — DMP de 0,06 (IC95% −0,37 a 0,48; P = 0,80).
- Infiltração leucocitária em condições inflamatórias: sem efeito significativo (DMP −0,60; IC95% −1,31 a 0,11; P = 0,10).
A conclusão dos autores foi que o maropitant reduz de forma significativa a CAM, mas não tem efeito comprovado sobre a inflamação nem sobre a dor. Duas ressalvas: a metanálise é de 2020, e vários dos ensaios clínicos que discutimos adiante saíram depois; e ela reúne desfechos e protocolos muito diferentes, o que limita o quanto um número único representa a realidade.
O que os estudos de CAM mostram
A CAM é o desfecho substituto clássico para o efeito poupador de anestésico: se um fármaco reduz a concentração de inalatório necessária para suprimir a resposta ao estímulo, ele está bloqueando parte da nocicepção. Quatro estudos experimentais, todos com poucos animais saudáveis e em condições controladas, sustentam o efeito do maropitant:
| Estudo | Modelo | Resultado |
|---|---|---|
| Boscan et al., 2011 | 8 cães; sevoflurano; tração do ovário e do ligamento ovariano (6,61 N) | CAM de 2,12% → 1,61% com 1 mg/kg IV + 30 µg/kg/h (−24%) e → 1,48% com 5 mg/kg IV + 150 µg/kg/h (−30%) |
| Niyom et al., 2013 | 15 gatas (CAM em 10); sevoflurano; ligamento ovariano (4,9 N) | CAM de 2,96% → 2,51% com 1 mg/kg IV (−15%); com 5 mg/kg, 2,46% (sem diferença em relação à dose menor) |
| Alvillar et al., 2012 | 7 cães; sevoflurano; pinçamento de cauda (estímulo somático) | CAM de 2,08% → 1,74% com 5 mg/kg IV + 150 µg/kg/h (−16%). Epidural (1 mg/kg): 1,92% contra 2,17% com salina, sem diferença |
| Fukui et al., 2017 | 6 beagles; sevoflurano; estimulação elétrica (CAM-BAR) | CAM-BAR de 3,37% (salina) → 2,88% com maropitant 1 mg/kg SC; carprofeno 4 mg/kg SC: 2,96%; associação: 2,81% (sem efeito aditivo) |
Três leituras importam. A primeira: o efeito é real e reproduzido em duas espécies — mas de magnitude moderada (15 a 30%). A segunda: há um teto de dose, pelo menos em gatos, onde subir de 1 para 5 mg/kg não acrescentou nada; em cães, a dose maior rendeu 30% contra 24%, e a revisão de Hay Kraus descreve essa diferença como não significativa. A terceira, que atrapalha o argumento "visceral": o efeito aparece também com estímulo somático (pinçamento de cauda) e elétrico. A hipótese de que o maropitant seria especialmente bom na dor visceral é coerente com a biologia, mas esses estudos não a isolam. E a via epidural, que seria a aposta óbvia para atuar na medula, não funcionou em cães.
O efeito poupador também aparece, em escala menor, em cães clínicos: num ensaio com 24 cadelas em OVH (acepromazina e metadona, meloxicam), o isoflurano expirado médio foi de 1,19 ± 0,26% com maropitant 1 mg/kg SC contra 1,44 ± 0,23% com salina (p = 0,022), mas sem diferença nos momentos nociceptivos específicos (incisão, pedículo, pinçamento cervical, fechamento), nos escores de dor ou na evolução da recuperação. E num ensaio com 45 cadelas e cinco regimes, bolus de 1 mg/kg seguido de infusão de 50, 75, 100 ou 200 µg/kg/h, só as infusões de 50 e de 100 µg/kg/h reduziram a fração expirada de sevoflurano (de 2,11 ± 0,07% para 1,81%) — sem relação dose-resposta, e sem efeito nos escores de dor.
Os ensaios clínicos: a favor, neutros e contra
Aqui a evidência existe, mas é heterogênea: comparadores diferentes, doses diferentes (de dose única SC a bolus de 1 mg/kg seguido de infusão de 30 a 200 µg/kg/h), analgesia de base diferente e, quase sempre, o mesmo cenário: cirurgia eletiva do ovário em fêmeas jovens e saudáveis. A tabela reúne os ensaios em cães que encontrei.
Cães
| Estudo | Amostra e protocolo | Resultado |
|---|---|---|
| Marquez et al., 2015 | 30 cadelas, OVH. Maropitant 1 mg/kg SC contra morfina 0,5 mg/kg SC | Isoflurano 1,35% contra 1,51% (p = 0,005); VAS à extubação 1,8 contra 4. Depois, sem diferença consistente: resgate em 13/17 contra 10/13. Os autores: diferenças pequenas, nenhum dos dois suficiente isolado. Financiamento parcial do fabricante |
| Swallow et al., 2017 | 24 cadelas, OVH. Acepromazina e metadona, meloxicam; maropitant 1 mg/kg SC contra salina | Menos isoflurano, mas sem diferença em escores de dor, em eventos nociceptivos específicos nem em náusea pós-operatória (50% dos cães, nos dois grupos). Os autores: sem benefício geral significativo |
| Karna et al., 2022 | 40 cães, OVH. Morfina 0,6 mg/kg contra morfina 0,3 mg/kg com maropitant 1 mg/kg (e combinações com dexmedetomidina), IM, 30 min antes | Diferença significativa de dor só para dexmedetomidina com morfina contra morfina isolada; resgate sem diferença. Os autores: doses menores de morfina com dexmedetomidina ou maropitant podem dar analgesia igual ou melhor que a morfina isolada |
| Cubeddu et al., 2023 | 40 cadelas, ovariectomia, desflurano. Dexmedetomidina 5 µg/kg com maropitant 1 mg/kg IV ou com metadona 0,3 mg/kg | Desflurano semelhante (0,70 contra 0,64 CAM, sem diferença), dor semelhante, nenhum resgate. Pressões e frequência cardíaca maiores com maropitant, recuperação mais rápida. Sem grupo placebo |
| Soares et al., 2021 | 24 cadelas, mastectomia. Cetamina e lidocaína em infusão, com ou sem maropitant (1,5 mg/kg + 100 µg/kg/h) | Com maropitant: menores escores de dor, menos cães com resgate e menor sensibilização periférica |
| Bozkurt et al., 2024 | 36 cadelas, OVH. Maropitant contra meloxicam contra controle | Menores escores de dor (escala de Melbourne) com maropitant que nos outros grupos (p < 0,05); nenhum resgate; PCR sem diferença |
| E Silva et al., 2025 | 45 cadelas, OVH, sevoflurano. Bolus de 1 mg/kg e infusão de 50, 75, 100 ou 200 µg/kg/h contra salina; morfina e acepromazina | Menos sevoflurano com 50 e 100 µg/kg/h, mas sem efeito em escores de dor nem na resposta autonômica. Os autores: não suprimiu o bastante a resposta ao estímulo |
| Ramírez-Castillo et al., 2026 | 30 cadelas, OVH. Maropitant (1 mg/kg + infusão) contra lidocaína (2 mg/kg + 50 µg/kg/min) | Redução da resposta simpática relacionada à nocicepção (índice PTA), semelhante à lidocaína. A unidade da infusão de maropitant aparece como µg/kg/min na metodologia e como µg/kg/h no resumo |
| Figueirinhas et al., 2026 | 72 cadelas, OVH. Dexmedetomidina com maropitant (n = 38) ou com metadona (n = 34) | No resumo: ovário mais fácil de exteriorizar, menos dor em 0, 1 e 2 horas e menos resgate com maropitant. Só tive acesso ao resumo, sem os valores |
Gatos
| Estudo | Amostra e protocolo | Resultado |
|---|---|---|
| Corrêa et al., 2019 | 30 gatas, OVH. Bolus de 1 mg/kg e infusão de 30 ou de 100 µg/kg/h, contra controle; morfina e acepromazina | Com 100 µg/kg/h: menor frequência cardíaca e pressão diastólica intraoperatórias e menos resgate de morfina |
| Corrêa et al., 2021 | 70 gatas, OVH, 7 grupos de 10. Maropitant (1 mg/kg + ~100 µg/kg/h), lidocaína e cetamina, isolados ou associados | Maropitant isolado: menores escores de dor e o grupo com menos resgates (3 eventos contra 28 no controle); as associações não acrescentaram e exigiram mais resgate que o maropitant sozinho. Sem eventos adversos. Grupos de 10, doses extrapoladas de cães |
| Rocha et al., 2025 | 16 gatas, OVH. Dose única de 1 mg/kg SC uma hora antes da MPA (dexmedetomidina e morfina), contra salina | Nenhum vômito contra 62,5%; fentanil intraoperatório menor (mediana 9 contra 13; p = 0,0486); escores de dor pós-operatórios e resgate semelhantes |
| Okur et al., 2025 | 20 gatas, OVH. Dexmedetomidina com maropitant 1 mg/kg ou com butorfanol 0,2 mg/kg | Dor menor com maropitant aos 120 min (diferença média 3,2; IC95% 0,7 a 5,8); vômito 1/10 contra 0/10; sedação inicial mais profunda com butorfanol |
Por que os resultados divergem?
Lendo as duas tabelas juntas, aparecem alguns padrões — todos observações, não conclusões comprovadas. Os resultados mais favoráveis em dor tendem a vir de infusão contínua (Corrêa 2019 e 2021, Soares 2021) e de protocolos em que a analgesia de base era mais enxuta; os mais neutros vêm de dose única SC (Rocha 2025, Swallow 2017) ou de protocolos com opioide de maior potência e AINE já presentes (metadona e meloxicam em Swallow). Mas há contraexemplos: o ensaio de E Silva 2025 usou infusão em quatro doses e não encontrou efeito em dor, e os regimes de infusão variam de 30 a 200 µg/kg/h sem uma relação dose-resposta clara. Some-se a isso o tamanho pequeno dos grupos (de 9 a 38 animais), comparadores e escalas de dor diferentes, e o fato de que a maioria dos ensaios é de poucos centros. O quadro é o de um efeito que existe, talvez dependa do regime e da analgesia de base, e não é grande o suficiente para aparecer de forma consistente em amostras pequenas.
E na doença visceral de verdade?
É a pergunta que importa para quem lê "analgesia visceral" pensando em pancreatite ou gastroenterite, e a literatura publicada é praticamente muda. O único dado que encontrei é um trabalho de conclusão de curso (graduação) da Universidade de Santander, na Colômbia: 180 cães com gastroenterite, avaliados pela Escala de Melbourne antes e 3 e 6 horas depois de uma infusão, comparando maropitant com dipirona, tramadol com cetamina e lidocaína, e cetamina com lidocaína e dipirona. As infusões com lidocaína e cetamina reduziram mais a dor do que a combinação de maropitant com dipirona. É um dado frágil — não revisado por pares, com o maropitant misturado a outro analgésico —, mas é o único sinal clínico em dor visceral por doença, e ele não favoreceu o maropitant.
Então, ajuda ou não?
Lendo tudo junto, a resposta mais defensável é: ajuda de forma inconsistente, e, quando ajuda, é pouco e dentro de um conjunto de analgésicos. A metanálise de 2020 confirmou o efeito poupador de anestésico e não encontrou efeito sobre a dor; os ensaios posteriores acrescentam sinais favoráveis (infusão em gatas, contra meloxicam, contra metadona, como adjunto em mastectomia) e sinais neutros (dose única, protocolos multimodais robustos). Além disso:
- a maioria dos animais dos ensaios mais bem descritos ainda precisou de resgate, e o ganho, quando existe, concentra-se no intraoperatório e nas primeiras horas;
- os comparadores (morfina 0,5 mg/kg, metadona 0,3 mg/kg, meloxicam, lidocaína) e os protocolos variam bastante, o que impede dizer "equivale a um opioide" de forma geral;
- todos os ensaios publicados que encontrei são em cirurgia do ovário (e um em mastectomia), em animais jovens e saudáveis. Não encontrei ensaio publicado em doença visceral (pancreatite, gastroenterite, obstrução) com desfecho analgésico; extrapolar daí é inferência, não evidência;
- não há dose analgésica estabelecida: a bula cobre a dose antiemética, e os esquemas dos estudos (1 mg/kg com ou sem infusão de 30 a 200 µg/kg/h) são dados de pesquisa, não recomendação.
O que pesa mais na decisão: segurança e antiemese
Hemodinâmica da via IV
A via IV pode derrubar a pressão arterial, e o grau depende da MPA. Num cruzamento com 8 beagles saudáveis (1 mg/kg IV em 2 minutos), nos cães acordados com monitorização invasiva, houve queda transitória da pressão com aumento da frequência cardíaca (sem mudança na medida oscilométrica). Sob propofol e isoflurano, com MPA de acepromazina (0,005 mg/kg) e butorfanol (0,2 mg/kg), a PAM chegou a 54 ± 6 mmHg no segundo minuto da injeção (hipotensão clinicamente relevante, com 5 dos 8 cães já precisando de bolus de fluido antes do maropitant); com dexmedetomidina (0,005 mg/kg) e butorfanol, não houve queda significativa durante a injeção. Um estudo de 2026 com 26 galgos sob sevoflurano reproduziu o padrão: bem tolerado após dexmedetomidina e metadona, e com hipotensão clinicamente relevante (PAM de 51 ± 7 mmHg), transitória, após acepromazina e metadona. Os dois estudos têm limitações (saudáveis, pequenos), mas apontam na mesma direção: aplicação lenta, pressão monitorada e atenção redobrada com acepromazina.
ECG e gatos
Em 20 cães saudáveis que completaram o estudo, 1 mg/kg SC causou prolongamento sutil do QTc (significativo apenas com a fórmula de Van de Water) e redução da amplitude da onda P, sem arritmias e sem relevância clínica provável em cães saudáveis. Em gatos, a segurança hemodinâmica parece melhor: em 20 gatas saudáveis, 1 mg/kg IV 10 minutos antes da indução com propofol (após butorfanol e alfaxalona IM) não alterou sedação, dose de propofol (5,2 ± 2,1 contra 5,6 ± 1,3 mg/kg) nem variáveis cardiovasculares.
Dor à injeção
A aplicação subcutânea dói, e a temperatura do produto importa. Em cães, apenas 6% tiveram dor à injeção com o produto refrigerado, contra 26% com o produto em temperatura ambiente ou aquecido; a ligação do maropitant à ciclodextrina do veículo cai cerca de 4 vezes a 22°C e cerca de 10 vezes a 37°C, em comparação com 4°C — a recomendação é aplicar logo após retirar da geladeira. Em gatos, cerca de 37% tiveram reação moderada a acentuada à injeção SC em um estudo, e outro encontrou 27% com escore de dor igual ou maior que 7 em 10, contra 4% dos controles. Uma revisão sistemática atribui a dor ao conservante metacresol e sugere formulações específicas para cães.
Antiemese e apetite: o benefício mais sólido
Se há um benefício perioperatório bem estabelecido, é este. Em cães pré-tratados com maropitant 1 mg/kg SC uma hora antes de hidromorfona 0,1 mg/kg IM, nenhum vomitou, contra 6 de 9 no controle. O tempo importa: com hidromorfona, o vômito foi prevenido já aos 30 minutos, mas a náusea só diminuiu de forma significativa aos 60 minutos; com morfina, 20 minutos de antecedência reduziram o vômito (14 de 37 contra 28 de 37) sem preveni-lo, e aos 30 minutos foram 3 de 20 contra 10 de 20 nos controles. Em gatos, o maropitant SC antes de morfina e dexmedetomidina reduziu o vômito de 20/34 para 1/32. O efeito sobre a náusea, porém, é menos consistente do que sobre o vômito. A bula recomenda aplicar pelo menos 45 a 60 minutos antes do estímulo emetogênico.
Outros cuidados
- Filhotes: em cães com menos de 11 semanas foi descrita hipoplasia de medula óssea e, segundo a revisão, o uso rotulado da apresentação injetável começa aos 2 meses.
- Reprodução: segurança não avaliada em reprodutores, gestantes ou lactantes.
- Gatos: sem alterações clínicas, hematológicas, bioquímicas ou de coagulação até 5 mg/kg por 15 dias; só reação e fibrose no local da injeção.
- Farmacocinética: em cães, a biodisponibilidade SC é de 91% (meia-vida de cerca de 7,75 h); a oral é de 24 a 37%; em gatos, a meia-vida é de cerca de 5 a 6,6 h.
Onde o maropitant se encaixa na MPA
O raciocínio que a evidência autoriza é o de adjunto com dois benefícios plausíveis: previne vômito e náusea relacionados a opioides (benefício bem estabelecido) e pode contribuir com um efeito poupador de anestésico e, em alguns regimes, uma analgesia modesta (benefício menor e menos seguro). Isso justifica considerá-lo em protocolos com opioides e em cirurgias abdominais, como já discutido em Como montar um protocolo de MPA. O que a evidência não autoriza é tratá-lo como analgésico de base: ele não substitui opioide, AINE ou bloqueio locorregional, e não dispensa a avaliação da dor com escala validada no pós-operatório (cães e gatos).
Em termos práticos, os pontos de atenção são a via (a SC, refrigerada, evita o pico hemodinâmico da IV, mas dói mais; a IV exige injeção lenta e pressão monitorada), o paciente (frágil e com risco de hipotensão pede cautela com IV, sobretudo se a MPA incluir acepromazina) e a antecedência (de 30 a 60 minutos para o efeito antiemético completo).
Como esta revisão foi feita (e o que ficou de fora)
Buscar bem importa neste tema, porque há muitos estudos pequenos e resultados que se contradizem. A busca combinou o PubMed (46 registros com maropitant e termos de analgesia, dor, CAM ou nocicepção), o Europe PMC, o OpenAlex (índice aberto, com cerca de 170 registros com maropitant no título), buscas em repositórios e periódicos brasileiros (SciELO, Pubvet e anais de congresso), buscas em japonês e em chinês e buscas gerais na web. O resultado dessas buscas em japonês e chinês foi apenas indireto: não encontrei estudo primário sobre analgesia com maropitant nessas línguas que mudasse o quadro.
Limitações que vale declarar: não consegui consultar diretamente o Web of Science, o Scopus e o CAB Abstracts (bases pagas), nem o Google Scholar; a metanálise de 2020 usou Medline, PubMed, ScienceDirect e Web of Science, o que cobre parte dessas bases até 2020; e alguns estudos recentes (Figueirinhas 2026, Callejas-Astiz 2026, Okur 2025, Sullivan 2025, Soares 2021, Bozkurt 2024) só tiveram o resumo acessível para mim, então os valores citados vêm dos resumos. Revisões de literatura em português (por exemplo, no Pubvet e em anais de congresso) existem e descrevem a analgesia como possível, pedindo estudos mais padronizados, mas não são estudos primários e não entraram nas tabelas.
Conclusão
O maropitant tem um efeito poupador de anestésico real, reproduzido em cães e gatos e confirmado numa metanálise, apoiado em uma hipótese biológica razoável. A analgesia, porém, é outra história: a metanálise não a encontrou, e os ensaios clínicos posteriores se dividem, com sinais favoráveis (sobretudo com infusão, em gatas, contra meloxicam e contra metadona) e sinais neutros (dose única, protocolos multimodais robustos). Os custos práticos são reais (hipotensão com a via IV em certas MPAs, dor à injeção) e não há ensaio em doença visceral. A pergunta "ajuda ou não?" tem uma resposta curta: pode ajudar como parte de um conjunto, não sozinho, e a evidência não permite prometer ao paciente que ajudará. Se for usado por outras razões, como a antiemese, o efeito analgésico é um bônus plausível; se a dor é o problema principal, a base continua sendo a analgesia multimodal com opioide, AINE e bloqueios.
Perguntas frequentes
O maropitant tem efeito analgésico?
A evidência é inconsistente. Uma metanálise de 14 estudos (128 animais tratados e 127 controles) mostrou efeito poupador de anestésico significativo (diferença média padronizada de −0,92; IC95% −1,30 a −0,54), mas nenhum efeito sobre a dor (0,06; IC95% −0,37 a 0,48). Os ensaios clínicos posteriores se dividem: vários mostram menos dor ou menos resgate (sobretudo com infusão contínua), outros não mostram diferença. A indicação em bula é antiemética; o uso como analgésico é extrabula.
O maropitant age só na dor visceral?
Não parece ser exclusivo. A base teórica é forte para a dor visceral (mais de 80% dos aferentes viscerais contêm substância P, contra 21% dos somáticos), mas o maropitant IV também reduziu em 16% a CAM sob estímulo somático (pinçamento de cauda) e reduziu a CAM-BAR sob estimulação elétrica. Por via epidural (1 mg/kg), não alterou a CAM em cães.
O maropitant pode substituir o opioide na MPA?
Os dados não sustentam isso. No ensaio com 30 cães em OVH, 13 de 17 do grupo maropitant e 10 de 13 do grupo morfina precisaram de morfina de resgate, e os autores concluíram que nenhum dos dois, isolado, parecia adequado. Outro ensaio sugere que o maropitant pode permitir doses menores de morfina, mas a diferença significativa daquele estudo foi com a dexmedetomidina. Na prática, o maropitant entra como adjunto, não como analgésico de base.
O maropitant funciona como analgésico em gatos?
Há sinais favoráveis, mais consistentes com infusão do que com dose única. Em gatas, 1 mg/kg IV reduziu a CAM do sevoflurano em 15%, e 5 mg/kg não acrescentou efeito. Com bolus de 1 mg/kg e infusão de 100 µg/kg/h, reduziu o resgate de morfina em dois ensaios (30 e 70 gatas). A dose única de 1 mg/kg SC reduziu o resgate intraoperatório de fentanil, mas não os escores de dor pós-operatórios.
O maropitant ajuda na dor da pancreatite ou da gastroenterite?
Não há ensaio publicado em periódico que tenha testado isso: os estudos disponíveis são quase todos em cirurgia do ovário de fêmeas jovens saudáveis. O único dado que encontrei em doença visceral é um trabalho de conclusão de curso colombiano (2025) com 180 cães com gastroenterite, no qual infusões com lidocaína e cetamina reduziram mais a dor do que maropitant com dipirona. É um dado frágil, mas não favoreceu o maropitant.
O maropitant intravenoso pode causar hipotensão?
Pode, dependendo da MPA. Em beagles saudáveis, 1 mg/kg IV em 2 minutos causou queda transitória da pressão; com acepromazina e butorfanol sob isoflurano, a PAM chegou a 54 ± 6 mmHg (hipotensão clinicamente relevante), enquanto com dexmedetomidina e butorfanol não houve queda significativa durante a injeção. Um estudo de 2026 com 26 galgos confirmou o padrão. Recomenda-se aplicar lentamente (1 a 2 minutos) e monitorar a pressão.
Com quanto tempo de antecedência devo aplicar o maropitant antes do opioide?
Para a função antiemética, a bula recomenda pelo menos 45 a 60 minutos antes do estímulo emetogênico. Com hidromorfona, o vômito foi prevenido já aos 30 minutos, mas a náusea só reduziu de forma significativa aos 60 minutos; com morfina, 20 minutos reduziram o vômito sem preveni-lo.
Referências
- ALVILLAR, B. M.; BOSCAN, P.; MAMA, K. R.; FERREIRA, T. H.; CONGDON, J.; TWEDT, D. C. Effect of epidural and intravenous use of the neurokinin-1 (NK-1) receptor antagonist maropitant on the sevoflurane minimum alveolar concentration (MAC) in dogs. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, v. 39, n. 2, p. 201-205, 2012. DOI: 10.1111/j.1467-2995.2011.00670.x.
- BOSCAN, P.; MONNET, E.; MAMA, K.; TWEDT, D. C.; CONGDON, J.; STEFFEY, E. P. Effect of maropitant, a neurokinin 1 receptor antagonist, on anesthetic requirements during noxious visceral stimulation of the ovary in dogs. American Journal of Veterinary Research, v. 72, n. 12, p. 1576-1579, 2011. DOI: 10.2460/ajvr.72.12.1576.
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