2 de agosto de 2026 · Anestesiologia · Leitura de 18 min · Por Me. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Dissociativa, TIVA, PIVA ou Inalatória: como escolher a técnica anestésica certa?

Não existe uma técnica anestésica "melhor" — existe a técnica certa para aquele paciente, naquele procedimento, com aquela estrutura disponível. Um gato hipertireóideo com cardiomiopatia, um cão politraumatizado em choque hipovolêmico e um paciente saudável para uma castração eletiva não deveriam ser anestesiados da mesma forma, e a escolha entre anestesia dissociativa, TIVA, PIVA e anestesia inalatória é exatamente onde essa diferença se decide. Entender o mecanismo por trás de cada uma — não só "qual fármaco usar" — é o que permite adaptar a técnica ao paciente, e não o contrário.

Resumo

  • Anestesia dissociativa (cetamina, tiletamina-zolazepam): antagonismo do receptor NMDA. Na rotina, sua indicação mais comum não é farmacológica, é comportamental — o animal irrascível ou verdadeiramente perigoso de manejar, quando a MPA convencional isolada não é suficiente (ou é arriscada demais para a equipe) para permitir contenção segura. Também usada em indução e procedimentos curtos, mas contraindicada em cardiomiopatia hipertrófica felina, doença do SNC e trauma ocular penetrante.
  • TIVA (anestesia total intravenosa): manutenção 100% injetável, sem inalatório algum. Na prática contemporânea, sua indicação mais relevante é o paciente neurológico ou com trauma cranioencefálico — propofol e alfaxalona preservam a autorregulação cerebrovascular, ao contrário do inalatório. Também útil em cirurgia de vias aéreas e ambientes sem exaustão de gases (RM); a hipertermia maligna, apesar de citada na literatura, é rara e não tem teste de triagem disponível na rotina, então pesa pouco nessa escolha do dia a dia. O propofol acumula em gatos por deficiência de glicuronidação, e a recuperação mais longa e o custo maior limitam seu uso rotineiro.
  • PIVA (anestesia parcial intravenosa): combina uma fração do inalatório com infusões contínuas (opioides, alfa-2 agonistas, cetamina, lidocaína), reduzindo a concentração de agente volátil necessária em até 60%. É a escolha para pacientes críticos, cardiopatas e cirurgias com dor intensa — mas lidocaína em infusão é contraindicada em gatos.
  • Anestesia inalatória pura é a técnica mais previsível e titulável para a maioria dos pacientes saudáveis — mas produz depressão cardiovascular dose-dependente já nas concentrações realmente usadas na rotina (perto de 1–1,3 CAM) e aumenta a pressão intracraniana por vasodilatação cerebral, o que a torna inadequada em pacientes neurológicos ou com TCE. É contraindicação absoluta quando o paciente é conhecidamente suscetível à hipertermia maligna, mas essa síndrome é rara e não há teste de triagem disponível no dia a dia clínico.
  • As quatro técnicas não são categorias excludentes: na prática clínica, a maioria dos protocolos modernos combina elementos de mais de uma — o que a literatura chama de anestesia balanceada.

Um espectro, não quatro caixas separadas

Antes de detalhar cada técnica, vale desfazer uma ideia comum: dissociativa, TIVA, PIVA e inalatória não são quatro escolhas mutuamente excludentes, isoladas umas das outras. Elas formam um espectro contínuo entre dois extremos — de um lado, a anestesia 100% injetável (TIVA); do outro, a anestesia mantida inteiramente por agente volátil. A anestesia dissociativa entra tipicamente como indução ou como anestésico único de curta duração; a PIVA fica no meio do espectro, usando o inalatório em dose reduzida, complementado por infusões injetáveis. O conceito por trás disso — usar mais de um fármaco, cada um contribuindo com uma parte diferente do estado anestésico (hipnose, analgesia, relaxamento muscular) — é chamado de anestesia balanceada, e é a lógica que efetivamente rege a maior parte da prática anestésica de pequenos animais hoje.

Evidência: Duke T. Partial intravenous anesthesia in cats and dogs. Canadian Veterinary Journal, 2013;54(3):276-282.

Anestesia dissociativa: cetamina e tiletamina-zolazepam

A anestesia dissociativa recebe esse nome porque, ao contrário dos anestésicos que deprimem globalmente o sistema nervoso central, ela produz um estado em que o córtex cerebral parece "dissociado" do sistema límbico e talâmico — o paciente pode manter reflexos, tônus muscular e até os olhos abertos, mas sem responder a estímulos dolorosos de forma coordenada. O mecanismo por trás disso é o antagonismo não competitivo do receptor NMDA (N-metil-D-aspartato), tanto pela cetamina quanto pela tiletamina — esta última, associada à zolazepam (um benzodiazepínico) na formulação comercial combinada.

Evidência: Kucharski P, Kiełbowicz Z. Dissociative anaesthesia in dogs and cats with use of tiletamine and zolazepam combination. What we already know about it. Polish Journal of Veterinary Sciences, 2021;24(3):451-459.

Na prática diária, a indicação mais comum não vem de um fluxograma de farmacologia — vem do paciente que não coopera. Quando a contenção física já oferece risco para a equipe e a MPA convencional isolada (opioide + sedativo por via intramuscular) não é suficiente para acalmar o animal o bastante para um acesso venoso seguro, a via intramuscular de um dissociativo — isolado ou combinado a um alfa-2 agonista e/ou benzodiazepínico — costuma ser a ferramenta mais confiável da clínica de pequenos animais. É justamente esse cenário, e não uma lista de doenças raras, que mais justifica escolher a dissociativa no dia a dia.

Evidências: Grubb T, Sager J, Gaynor JS, et al. 2020 AAHA Anesthesia and Monitoring Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association, 2020;56(2):59-82. · Hung TY, Yudong J, Steagall PV, Poincelot L. A narrative review of the clinical applications of tiletamine-zolazepam in canine and feline anesthesia. Frontiers in Veterinary Science, 2026;13:1807278.

Indicações

Contraindicações

Evidências: Hung TY, Yudong J, Steagall PV, Poincelot L. A narrative review of the clinical applications of tiletamine-zolazepam in canine and feline anesthesia. Frontiers in Veterinary Science, 2026;13:1807278. · Kucharski P, Kiełbowicz Z. Dissociative anaesthesia in dogs and cats with use of tiletamine and zolazepam combination. Polish Journal of Veterinary Sciences, 2021;24(3):451-459.

Um detalhe farmacocinético relevante separa as duas espécies mais comuns na clínica de pequenos animais: em gatos, a cetamina é eliminada predominantemente inalterada pela via renal, enquanto em cães ela é metabolizada no fígado ao metabólito ativo norcetamina antes da excreção. Isso ajuda a explicar por que gatos com insuficiência renal acumulam cetamina de forma mais previsível do que cães com a mesma condição — nestes, a via hepática intacta ainda consegue processar boa parte do fármaco. O mesmo padrão espécie-dependente aparece na combinação tiletamina-zolazepam: em gatos, a zolazepam tem meia-vida mais longa que a tiletamina, o que prolonga a sedação residual; em cães, a relação se inverte, com a tiletamina persistindo mais — o que explica por que a recuperação da tiletamina-zolazepam tende a ser mais arrastada em felinos.

Evidência: Hung TY, Yudong J, Steagall PV, Poincelot L. A narrative review of the clinical applications of tiletamine-zolazepam in canine and feline anesthesia. Frontiers in Veterinary Science, 2026;13:1807278.

TIVA: anestesia total intravenosa

Na TIVA, o paciente é induzido e mantido inteiramente por fármacos injetáveis — em geral propofol ou alfaxalona, isolados ou associados a um opioide em infusão contínua — sem qualquer participação de agente inalatório durante a manutenção. Um levantamento recente com anestesiologistas veterinários certificados pelo American e European College of Veterinary Anaesthesia and Analgesia mostrou que o uso de TIVA ainda é ocasional na prática, mas quando usada, é motivada sobretudo por indicação clínica específica (citada por 100% dos respondentes) e por maior estabilidade hemodinâmica (87%).

Evidência: Bustamante R, Ortiz-Díez G, Canfrán S, Gómez de Segura IA, Aguado D. A survey on the use of total intravenous anaesthesia in small animals by veterinary anaesthesiologists. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2024;51(6).

Indicações

Evidência: Bini G, Bailey KM, Voyvodic JT, Chiavaccini L, Munana KR, Keenihan EK. Effects of alfaxalone, propofol and isoflurane on cerebral blood flow and cerebrovascular reactivity to carbon dioxide in dogs: a pilot study. The Veterinary Journal, 2023;291:105939.

Vale um comentário sobre a hipertermia maligna, citada com frequência como indicação de TIVA na literatura: é preciso medir essa recomendação com uma dose de realismo clínico. A incidência real em medicina veterinária é desconhecida e considerada rara, e o diagnóstico depende de teste de contratura muscular in vitro (exige biópsia, é caro e só disponível em poucos centros) ou de análise genética de DNA — nenhum dos dois é usado como triagem de rotina antes de uma anestesia comum. Na prática, isso significa que raramente há como saber, antes de um primeiro episódio, qual paciente é de fato suscetível, a não ser que já exista histórico prévio (do próprio animal ou de parentes) ou linhagem com mutação conhecida do gene RYR1. "Risco de hipertermia maligna" funciona como justificativa teórica sólida, mas quase nunca é o motivo real por trás de uma escolha de TIVA no consultório do dia a dia.

Evidência: Lin HC. Malignant Hyperthermia in Animals. Merck/MSD Veterinary Manual, última revisão junho de 2025.

Contraindicações e cuidados

O maior cuidado da TIVA está na escolha do fármaco por espécie. O propofol pode ser infundido por períodos prolongados em cães com recuperação relativamente rápida, mas em gatos a situação é bem diferente: felinos não expressam as enzimas UGT1A6 e UGT1A9, responsáveis pela glicuronidação de compostos fenólicos — via metabólica que, em outras espécies, é a principal rota de eliminação do propofol. Sem ela, o gato depende de vias mais lentas (oxidação e sulfatação), o que retarda a depuração do fármaco e favorece o acúmulo em infusões contínuas.

Evidência: Court MH. Feline drug metabolism and disposition: pharmacokinetic evidence for species differences and molecular mechanisms. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2013;43(5):1039-1054.

Na prática, isso significa que o propofol não é a melhor escolha para TIVA de mais de cerca de 30 minutos em gatos — o acúmulo já foi associado a recuperação prolongada e, em um relato de caso, à anemia por corpúsculos de Heinz após 12 induções repetidas em um gato submetido a radioterapia fracionada, quadro que se resolveu após a substituição do protocolo de indução.

Evidência: Baetge CL, Smith LC, Azevedo CP. Clinical Heinz Body Anemia in a Cat After Repeat Propofol Administration Case Report. Frontiers in Veterinary Science, 2020;7:591556.

A alfaxalona compartilha o mesmo mecanismo geral do propofol, mas com uma margem de segurança mais ampla — índice terapêutico de três a quatro vezes maior — e é rapidamente eliminada em cães, com pouco efeito cumulativo. Em ambas as espécies, porém, o principal risco imediato da indução é a apneia pós-indução: um estudo mostrou que a incidência de apneia sobe de 25% com administração lenta para 100% com administração rápida do bólus de indução, independentemente de o fármaco ser propofol ou alfaxalona.

Evidência: Bigby SE, Beths T, Bauquier S, Carter JE. Effect of rate of administration of propofol or alfaxalone on induction dose requirements and occurrence of apnea in dogs. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, 2017;44(6):1267-1275. · Muir WW 3rd, Gadawski JE. Respiratory depression and apnea induced by propofol in dogs. American Journal of Veterinary Research, 1998;59(2):157-161.
CaracterísticaPropofolAlfaxalona
Margem de segurançaReferência3–4x maior que propofol
Cães em TIVA prolongadaBem tolerado, recuperação rápidaEliminação rápida, pouco efeito cumulativo
Gatos em TIVA prolongadaAcumula (déficit de UGT1A6/1A9) — evitar >30 minPode causar hipotensão; dados de PIVA/TIVA ainda limitados
Risco imediatoApneia pós-indução dose/velocidade-dependenteApneia pós-indução dose/velocidade-dependente
Importante: apneia pós-indução responde bem a suporte de oxigênio e ventilação controlada — o ponto-chave é estar preparado para isso antes de induzir, não tratá-la como imprevisto.

PIVA: anestesia parcial intravenosa

A PIVA reduz a concentração inspirada de agente inalatório usando, concomitantemente, fármacos injetáveis em infusão contínua — opioides, agonistas alfa-2 adrenérgicos, cetamina e lidocaína são os mais usados. A lógica é simples: cada classe de fármaco contribui com uma fração da poupança de agente volátil necessária, e a soma permite manter o paciente em um plano anestésico adequado com muito menos inalatório — e, portanto, com muito menos da depressão cardiovascular dose-dependente que o agente volátil causaria isoladamente.

Evidência: Duke T. Partial intravenous anesthesia in cats and dogs. Canadian Veterinary Journal, 2013;54(3):276-282.
ClassePoupança de inalatório em cãesObservação
Opioides (morfina, fentanil, remifentanil)50–60%Em gatos, apenas 15–20% — doses maiores podem causar excitação do SNC nessa espécie
Alfa-2 agonistas (dexmedetomidina)Até 60%Vasoconstrição, bradicardia e queda de contratilidade — pode exigir anticolinérgico
Cetamina25% (dose padrão) a 40–45% (dose alta)Pode aumentar pressão arterial e temperatura corporal
Lidocaína (só cães)20–40%Contraindicada em infusão em gatos — bólus já causou depressão hemodinâmica na espécie
MidazolamAté 55% (doses altas)Sem propriedade analgésica, mas hemodinamicamente estável
Evidência: Duke T. Partial intravenous anesthesia in cats and dogs. Canadian Veterinary Journal, 2013;54(3):276-282.

Indicações

Contraindicações e cuidados

Um protocolo clássico de PIVA em cães é a combinação MLK (morfina + lidocaína + cetamina), infundida junto a fluido de manutenção — útil tanto no transoperatório quanto estendida ao pós-operatório imediato em pacientes com dor significativa.

Evidência: Duke T. Partial intravenous anesthesia in cats and dogs. Canadian Veterinary Journal, 2013;54(3):276-282.

Anestesia inalatória

A anestesia inalatória continua sendo a técnica mais usada na rotina de pequenos animais, e por um motivo simples: sua profundidade é titulável em tempo real através do vaporizador, com resposta relativamente rápida — algo que nenhuma infusão injetável reproduz com a mesma facilidade. A potência de cada agente é medida pela concentração alveolar mínima (CAM), definida como a concentração, a 1 atmosfera, que impede o movimento em resposta a um estímulo doloroso supramáximo em 50% dos indivíduos expostos — quanto menor a CAM, mais potente o agente.

Evidência: Reed R, Doherty T. Minimum alveolar concentration: Key concepts and a review of its pharmacological reduction in dogs. Part 1. Research in Veterinary Science, 2018;117:266-270.

Um estudo de referência determinou a CAM do isoflurano em 1,28 ± 0,06% em cães e 1,63 ± 0,02% em gatos, medindo os efeitos cardiovasculares em múltiplos crescentes dessa concentração (1 a 3 CAM em cães, 1 a 2,4 CAM em gatos): conforme a dose subia, a pressão arterial média caiu de forma consistente e significativa em ambas as espécies.

Evidência: Steffey EP, Howland D Jr. Isoflurane potency in the dog and cat. American Journal of Veterinary Research, 1977;38(11):1833-1836.

O mesmo padrão dose-dependente aparece com o sevoflurano: em cães instrumentados cronicamente, já a 1,2 CAM — uma concentração próxima da faixa realmente usada na manutenção de rotina, já que a maioria dos procedimentos mantém o paciente entre 1 e 1,3 CAM, não em múltiplos maiores — a pressão aórtica caiu 22% e o volume sistólico, 31%, com aumento compensatório de frequência cardíaca. Concentrações supraclínicas (2 CAM ou mais) aprofundam ainda mais essa queda, mas não representam a prática diária: servem para caracterizar o comportamento do fármaco em condições experimentais, não para estimar o risco do paciente que está de fato na mesa de cirurgia.

Evidência: Bernard JM, Wouters PF, Doursout MF, Florence B, Chelly JE, Merin RG. Effects of sevoflurane and isoflurane on cardiac and coronary dynamics in chronically instrumented dogs. Anesthesiology, 1990;72(4):659-662.

Indicações

Contraindicações

Evidências: Nelson TE. Malignant hyperthermia in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, 1991;198(6):989-994. · Leary SL, Anderson LC, Manning PJ, Bache RJ, Zweber BA. Recurrent malignant hyperthermia in a Greyhound. Journal of the American Veterinary Medical Association, 1983;182(5):521-522.

Comparativo rápido

TécnicaTitulação em tempo realCustoMelhor cenárioCuidado principal
DissociativaBaixa (efeito fixo por dose)BaixoContenção de animal irrascível, indução, procedimentos curtosCardiomiopatia felina, doença do SNC
TIVAModerada (por infusão)AltoPaciente neurológico/TCE, vias aéreas, RMAcúmulo de propofol em gatos
PIVAAlta (vaporizador + infusão)ModeradoCrítico, cardiopata, dor intensaLidocaína sistêmica em gatos
InalatóriaAlta (vaporizador)Baixo–moderadoRotina em paciente saudávelHipertensão intracraniana/TCE, choque/hipovolemia

Como decidir na prática

A pergunta não deveria ser "qual técnica eu uso por padrão", mas "o que este paciente específico não tolera". Um paciente saudável para um procedimento eletivo de rotina raramente precisa de mais do que uma boa MPA, indução e manutenção inalatória bem monitorada. Já um paciente crítico, cardiopata, ou com dor intensa e sensibilização central se beneficia de PIVA, que reduz a dose de inalatório exatamente na medida em que a estabilidade hemodinâmica se torna prioridade. Um exemplo concreto e comum na rotina: o paciente com trauma cranioencefálico. Ali a escolha não é sutil — o inalatório aumenta a pressão intracraniana por vasodilatação cerebral, exatamente o que se quer evitar num cérebro já edemaciado, enquanto o propofol em TIVA preserva a autorregulação cerebrovascular e reduz o consumo metabólico cerebral de oxigênio. É esse tipo de decisão guiada pela fisiopatologia do paciente — não uma preferência de rotina do serviço — que deveria orientar a escolha entre TIVA e inalatório. Já a anestesia dissociativa segue sendo a ferramenta certa quando o obstáculo é comportamental: o animal irrascível que a MPA convencional sozinha não contém — desde que o paciente não tenha uma das contraindicações cardíacas ou neurológicas que a tornam arriscada.

Importante: este texto discute o raciocínio farmacológico por trás da escolha de cada técnica e cita achados de estudos controlados, não um protocolo pronto para o seu paciente. A escolha depende de espécie, comorbidades, procedimento e estrutura disponível, e deve ser feita caso a caso.

Conclusão

Dissociativa, TIVA, PIVA e inalatória não competem entre si por um título de "melhor técnica" — cada uma resolve um problema clínico diferente, e a maior parte da anestesiologia de pequenos animais moderna já opera combinando elementos de mais de uma dentro do mesmo protocolo. Entender o mecanismo, a farmacocinética espécie-específica e as contraindicações reais de cada uma é o que transforma a escolha da técnica de hábito de plantão em decisão clínica — e é exatamente essa decisão que muda o desfecho do paciente que tem uma comorbidade que a "receita padrão" não previu.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre TIVA e PIVA?

TIVA (anestesia total intravenosa) mantém o paciente anestesiado inteiramente por fármacos injetáveis, sem nenhum agente inalatório. PIVA (anestesia parcial intravenosa) combina uma fração do agente inalatório com infusões contínuas de fármacos injetáveis (opioides, alfa-2 agonistas, cetamina, lidocaína), reduzindo a concentração de inalatório necessária sem eliminá-lo por completo.

Quando a anestesia dissociativa é indicada?

Na rotina, a indicação mais comum é comportamental, não farmacológica: animais irrascíveis ou perigosos de manejar, quando a MPA convencional isolada não é suficiente ou é arriscada demais para permitir contenção segura e acesso venoso. Também é usada em indução anestésica antes da manutenção inalatória, como anestésico único em procedimentos curtos (até cerca de 30 minutos) e em ambientes de campo sem estrutura para anestesia inalatória.

Por que a cetamina é contraindicada em gatos com cardiomiopatia hipertrófica?

Porque estimula o sistema nervoso simpático, aumentando frequência cardíaca, pressão arterial e consumo miocárdico de oxigênio por liberação de noradrenalina. Nesses pacientes, esse aumento de trabalho cardíaco pode precipitar arritmias, descompensação ou morte súbita.

Por que o propofol não deve ser usado em TIVA prolongada em gatos?

Gatos não expressam as enzimas UGT1A6 e UGT1A9, responsáveis pela glicuronidação de compostos fenólicos como o propofol em outras espécies. Sem essa via, o fármaco depende de rotas metabólicas mais lentas, o que retarda sua depuração e favorece acúmulo em infusões contínuas — associado a recuperação prolongada e, em administrações repetidas, a anemia por corpúsculos de Heinz.

Por que TIVA é preferível à anestesia inalatória em pacientes neurológicos ou com TCE?

Propofol e alfaxalona preservam a autorregulação cerebrovascular e reduzem a taxa metabólica cerebral de oxigênio, enquanto os agentes inalatórios são vasodilatadores cerebrais dose-dependentes que aumentam o fluxo sanguíneo cerebral e podem elevar a pressão intracraniana, mesmo em concentrações usadas na rotina. Um estudo em cães confirmou isoflurano aumentando o fluxo sanguíneo cerebral e reduzindo a reatividade cerebrovascular ao CO2, enquanto propofol e alfaxalona preservaram essa reatividade.

Quais pacientes se beneficiam de PIVA em vez de anestesia inalatória pura?

Pacientes críticos ou hemodinamicamente instáveis, cardiopatas, pacientes com dor intensa ou sensibilização central, e cirurgias neurológicas — porque a redução da concentração de inalatório necessária diminui a depressão cardiovascular dose-dependente do agente volátil.

Quais são as contraindicações da anestesia inalatória?

A mais relevante na prática é o paciente neurológico com hipertensão intracraniana ou TCE, pelo efeito vasodilatador cerebral dose-dependente do inalatório. A suscetibilidade à hipertermia maligna, documentada em raças como Greyhound, Pointer, Labrador, São Bernardo, Springer Spaniel e Border Collie, é contraindicação absoluta quando conhecida — mas é uma síndrome rara e sem teste de triagem de rotina, raramente identificável antes de um primeiro episódio. Pacientes hipovolêmicos ou em choque também toleram mal os agentes inalatórios, que causam vasodilatação e depressão miocárdica dose-dependentes.

TIVA é mais cara ou mais barata que anestesia inalatória?

Em geral, mais cara — o consumo de fármacos injetáveis e a recuperação mais prolongada foram as razões mais citadas por anestesiologistas veterinários para não usar TIVA com mais frequência. Ainda assim, é a técnica de escolha em cenários específicos — como o paciente neurológico ou com TCE — onde o benefício clínico compensa o custo maior.

Referências

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Sobre o autor: Me. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fontes citadas: 16 artigos e materiais de referência revisados (Duke, Kucharski & Kiełbowicz, Hung et al., Bustamante et al., Court, Baetge et al., Bigby et al., Bini et al., Grubb et al., Muir & Gadawski, Reed & Doherty, Steffey & Howland, Bernard et al., Nelson, Leary et al.) e o Merck/MSD Veterinary Manual — lista completa acima.