Cálculo de infusão contínua (TIVA) na prática
A infusão contínua (CRI, do inglês constant rate infusion) mantém uma concentração plasmática estável do fármaco, evitando os picos e vales dos bólus repetidos. É a base da TIVA (anestesia intravenosa total) e da analgesia transoperatória. O desafio para muita gente não é a farmacologia — é converter a dose prescrita em mL/h na bomba sem errar uma casa decimal.
Resumo
- A fórmula geral é mL/h = (dose × peso × 60) ÷ concentração, com todas as massas na mesma unidade.
- O erro mais perigoso é misturar µg e mg sem converter antes de dividir — engana por um fator de 1.000.
- Propofol tem pouco acúmulo em doses de indução moderadas, mas o uso repetido em gatos foi associado a corpúsculos de Heinz e recuperação mais lenta.
- A CRI existe para manter a concentração plasmática estável — o oposto do efeito "serra" dos bólus repetidos.
- Registrar a velocidade e cada ajuste na ficha é o que permite correlacionar mudanças de plano com a resposta do paciente depois.
Por que usar infusão contínua em vez de bólus repetidos
Um bólus intermitente produz um pico de concentração plasmática logo após a aplicação, seguido de queda progressiva até o próximo bólus — um padrão "dente de serra" que alterna entre profundidade anestésica excessiva e insuficiente. A CRI, ao repor o fármaco continuamente na mesma velocidade em que ele é eliminado, mantém a concentração plasmática dentro de uma faixa estreita e previsível, o que se traduz em plano anestésico mais estável e menor dose total do fármaco ao longo do procedimento.
O ponto de confusão: três unidades diferentes
A dificuldade vem de a dose, a concentração e a bomba falarem "línguas" diferentes:
- A dose vem em massa por peso por tempo — ex.: µg/kg/min ou mg/kg/h.
- A concentração da solução vem em massa por volume — ex.: mg/mL.
- A bomba de seringa/infusão trabalha em volume por tempo — mL/h.
Calcular a CRI é só encadear essas conversões na ordem certa.
A fórmula geral
Onde a dose está em massa/kg/min, o peso em kg, o 60 converte minutos em hora, e a concentração está na mesma unidade de massa por mL. A regra de ouro: antes de dividir, alinhe as unidades de massa (tudo em µg, ou tudo em mg). É aí que a maioria dos erros acontece.
Exemplo passo a passo
Paciente de 10 kg. Prescrição: fármaco a 5 µg/kg/min. Solução disponível: concentração de 50 µg/mL (já diluída). Qual a velocidade da bomba?
Programe a bomba em 60 mL/h. Repare que todas as massas estavam em µg — se a concentração viesse em mg/mL, seria preciso convertê-la antes (1 mg = 1.000 µg).
Preparando a diluição
Muitas vezes você define a concentração da bolsa/seringa para que a velocidade caia num número "redondo" e fácil de ajustar. O caminho é o inverso do cálculo acima: escolha a velocidade-alvo confortável, e calcule quantos mg do fármaco adicionar ao volume do diluente para que a dose bata. Deixar a bomba trabalhando entre 1 e 10 mL/h costuma dar boa precisão sem esvaziar a seringa rápido demais.
Propofol em CRI: o cuidado específico com gatos
O propofol é uma escolha comum para indução e para manutenção em TIVA justamente porque é de ação curta e tem pouco acúmulo quando usado em doses de indução moderadas (2–8 mg/kg IV), contando inclusive com alguma metabolização extra-hepática.
O ponto de atenção aparece na espécie felina e no uso repetido. O uso repetido de propofol deve ser evitado em gatos que possam precisar de episódios sucessivos de anestesia geral: essa prática foi associada a lesões hematológicas oxidativas — caracterizadas por aumento da produção de corpúsculos de Heinz —, além de aumento do tempo de recuperação e de anorexia.
Na prática do cálculo de CRI, isso significa que a escolha do fármaco não se resume à conta de mL/h: em gatos com histórico de anestesias sucessivas, vale rever se o propofol é mesmo a melhor base da infusão, ou se o protocolo deve mudar. É uma decisão que só aparece se o histórico de procedimentos anteriores do paciente estiver registrado e acessível.
Erros que mais aparecem
- Misturar µg e mg sem converter — erro de 1.000×, o mais perigoso de todos.
- Esquecer o ×60 ao passar de dose/min para dose/hora (ou aplicá-lo duas vezes).
- Usar o peso errado — copiar o peso do paciente anterior ou usar peso estimado.
- Não recalcular ao trocar a concentração da solução no meio do procedimento.
- Não registrar a velocidade e os ajustes na ficha — o que impede correlacionar mudanças de plano com a resposta do paciente, inclusive na análise da recuperação depois.
Por que automatizar o cálculo
A conta é simples, mas é feita sob pressão, com o paciente já anestesiado, e um deslize de casa decimal tem consequência clínica direta. Fazer o cálculo à mão em papel, no meio da sala cirúrgica, é justamente o cenário de maior risco. Um sistema que recebe dose, peso e concentração e devolve a velocidade em mL/h — e que ainda registra cada ajuste automaticamente na ficha anestésica — remove a aritmética manual do caminho crítico e deixa rastro de tudo que foi infundido.
Perguntas frequentes
Por que a CRI é mais estável que o bólus repetido?
Porque repõe o fármaco na mesma velocidade em que ele é eliminado, mantendo a concentração plasmática numa faixa estreita — em vez do padrão de pico e queda que cada bólus repetido produz.
O que fazer se eu trocar a concentração da solução no meio do procedimento?
Recalcular a velocidade da bomba do zero com a nova concentração. Manter a mesma velocidade em mL/h após trocar a concentração muda a dose real entregue ao paciente, mesmo que a prescrição em µg/kg/min não tenha mudado.
Posso usar propofol em CRI num gato que anestesia com frequência?
É um caso para reavaliar o protocolo. O propofol tem pouco acúmulo em doses de indução moderadas (2–8 mg/kg IV), mas o uso repetido em gatos que precisam de episódios sucessivos de anestesia geral foi associado a lesões hematológicas oxidativas — com aumento da produção de corpúsculos de Heinz —, além de tempo de recuperação maior e anorexia. Por isso o histórico de procedimentos anteriores do paciente pesa na escolha do fármaco da infusão.
Dá para usar a mesma fórmula para qualquer fármaco em CRI?
A fórmula de conversão de unidades (mL/h = dose × peso × 60 ÷ concentração) é a mesma para qualquer fármaco — o que muda entre eles é a dose terapêutica em si, que precisa ser conferida em referência de farmacologia veterinária atualizada para cada caso.
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