Cálculo de infusão contínua (TIVA) na prática
A infusão contínua (CRI, do inglês constant rate infusion) mantém uma concentração plasmática estável do fármaco, evitando os picos e vales dos bólus repetidos. É a base da TIVA (anestesia intravenosa total) e da analgesia transoperatória. O desafio para muita gente não é a farmacologia — é converter a dose prescrita em mL/h na bomba sem errar uma casa decimal.
O ponto de confusão: três unidades diferentes
A dificuldade vem de a dose, a concentração e a bomba falarem "línguas" diferentes:
- A dose vem em massa por peso por tempo — ex.: µg/kg/min ou mg/kg/h.
- A concentração da solução vem em massa por volume — ex.: mg/mL.
- A bomba de seringa/infusão trabalha em volume por tempo — mL/h.
Calcular a CRI é só encadear essas conversões na ordem certa.
A fórmula geral
Onde a dose está em massa/kg/min, o peso em kg, o 60 converte minutos em hora, e a concentração está na mesma unidade de massa por mL. A regra de ouro: antes de dividir, alinhe as unidades de massa (tudo em µg, ou tudo em mg). É aí que 90% dos erros acontecem.
Exemplo passo a passo
Paciente de 10 kg. Prescrição: fármaco a 5 µg/kg/min. Solução disponível: concentração de 50 µg/mL (já diluída). Qual a velocidade da bomba?
- Dose por minuto do paciente: 5 µg/kg/min × 10 kg = 50 µg/min.
- Dose por hora: 50 µg/min × 60 = 3.000 µg/h.
- Converter em volume pela concentração: 3.000 µg/h ÷ 50 µg/mL = 60 mL/h.
Programe a bomba em 60 mL/h. Repare que todas as massas estavam em µg — se a concentração viesse em mg/mL, seria preciso convertê-la antes (1 mg = 1.000 µg).
Preparando a diluição
Muitas vezes você define a concentração da bolsa/seringa para que a velocidade caia num número "redondo" e fácil de ajustar. O caminho é o inverso do cálculo acima: escolha a velocidade-alvo confortável, e calcule quantos mg do fármaco adicionar ao volume do diluente para que a dose bata. Deixar a bomba trabalhando entre 1 e 10 mL/h costuma dar boa precisão sem esvaziar a seringa rápido demais.
Erros que mais aparecem
- Misturar µg e mg sem converter — erro de 1.000×, o mais perigoso de todos.
- Esquecer o ×60 ao passar de dose/min para dose/hora (ou aplicá-lo duas vezes).
- Usar o peso errado — copiar o peso do paciente anterior ou usar peso estimado.
- Não recalcular ao trocar a concentração da solução no meio do procedimento.
- Não registrar a velocidade e os ajustes na ficha — o que impede correlacionar mudanças de plano com a resposta do paciente.
Por que automatizar o cálculo
A conta é simples, mas é feita sob pressão, com o paciente já anestesiado, e um deslize de casa decimal tem consequência clínica direta. Fazer o cálculo à mão em papel, no meio da sala cirúrgica, é justamente o cenário de maior risco. Um sistema que recebe dose, peso e concentração e devolve a velocidade em mL/h — e que ainda registra cada ajuste automaticamente na ficha — remove a aritmética manual do caminho crítico e deixa rastro de tudo que foi infundido.
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