17 de julho de 2026 · Protocolos · Leitura de 8 min · Por Dr. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Protocolo anestésico: o que muda entre cães e gatos

Copiar o protocolo de um cão para um gato — só ajustando a dose pelo peso — é um dos erros mais silenciosos da anestesia veterinária. Gatos não são "cães pequenos": metabolizam certos fármacos de forma mais lenta e inconsistente, respondem de forma diferente a opioides específicos e perdem calor corporal mais rápido. Nenhuma dessas diferenças aparece só "olhando o peso" do paciente.

Resumo

  • Gatos têm metabolismo mais lento e inconsistente de AINEs, principalmente por glucuronidação — uso crônico (+5 dias) tem mais risco nessa espécie.
  • Hidromorfona pode causar hipertermia pós-operatória em gatos em doses clínicas padrão, algo não relatado da mesma forma em cães.
  • Gatos perdem calor mais rápido que cães de porte comparável, pela relação superfície/volume corporal.
  • Gatos entubados têm risco específico de lesão traqueal por rotação do tubo com o cuff insuflado.

Farmacocinética: por que "mesma dose por kg" não é regra

A diferença mais documentada está no metabolismo de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Gatos têm vias de metabolização e excreção mais lentas e inconsistentes que outras espécies, principalmente por glucuronidação — e o uso crônico (mais de 5 dias) tende a ser associado a mais risco nessa espécie do que em cães. Isso não contraindica o AINE em gatos, mas muda o intervalo de dose, a duração do tratamento e a necessidade de monitorar função renal antes de repetir a prescrição.

Evidência: Snyder LBC, Johnson RA (eds). Canine and Feline Anesthesia and Co-Existing Disease. Wiley-Blackwell, 2015.

Opioides: efeitos que aparecem só numa das espécies

Hidromorfona e oximorfona têm perfis muito parecidos entre cães e gatos como analgésicos plenos-agonistas — mas a hidromorfona tem relato de causar hipertermia pós-operatória em gatos em doses clínicas padrão, um efeito que não aparece documentado da mesma forma em cães (a relevância clínica exata ainda é discutida na literatura). Já a morfina e a hidromorfona podem causar ofegação (panting) em cães, um efeito indesejado em procedimentos que exigem sedação estável — outro exemplo de resposta espécie-específica ao mesmo fármaco.

Evidência: Snyder LBC, Johnson RA (eds). Canine and Feline Anesthesia and Co-Existing Disease. Wiley-Blackwell, 2015.

Termorregulação: gatos esfriam mais rápido

Pela relação entre superfície corporal e volume, gatos perdem calor mais rapidamente que cães de porte semelhante durante a anestesia. Como a hipotermia intraoperatória atrasa o metabolismo hepático dos anestésicos e prolonga a recuperação, vale antecipar o aquecimento ativo em gatos desde o início do procedimento, não só quando a temperatura já caiu.

Vias aéreas: cuidado extra na espécie felina

Gatos entubados têm risco específico de lesão traqueal por rotação do tubo endotraqueal com o cuff relativamente insuflado — por isso a recomendação de sempre desconectar o tubo do circuito antes de reposicionar o paciente, um cuidado menos crítico (embora ainda relevante) em cães de porte maior.

Comparativo rápido

CãesGatos
Metabolismo de AINEsMais previsível, janela terapêutica mais amplaMais lento e inconsistente (glucuronidação) — cautela em uso crônico
HidromorfonaPode causar ofegação (panting)Relato de hipertermia pós-operatória em dose padrão
Perda de temperaturaMais lenta (relação superfície/volume menor)Mais rápida — aquecimento ativo desde o início
Risco na via aéreaMenor, mas presenteLesão traqueal por rotação do tubo com cuff insuflado
Fluidoterapia basal (hígido)~5 mL/kg/h~3 mL/kg/h
Importante: este comparativo mostra tendências documentadas na literatura, não um protocolo pronto. A escolha real de fármacos e doses depende do paciente individual, do procedimento e do julgamento clínico do médico-veterinário responsável.

Por que isso importa na ficha anestésica

Um protocolo pensado "por espécie" só funciona se a ficha registrar a espécie, o peso e o fármaco com precisão suficiente para cruzar com o histórico depois — inclusive para notar se um gato específico tende a apresentar algum desses efeitos espécie-típicos em procedimentos futuros. Isso é outro argumento a favor do registro digital sobre o papel: procurar um padrão em fichas de papel de procedimentos anteriores é impraticável.

Perguntas frequentes

Gatos podem receber os mesmos AINEs que cães?

Sim, mas com mais cautela: gatos metabolizam AINEs de forma mais lenta e inconsistente (principalmente por glucuronidação), e o uso por mais de 5 dias seguidos tende a ter mais risco nessa espécie. Monitoração de função renal é recomendada antes de repetir a prescrição.

Por que meu gato ficou com febre depois da anestesia com hidromorfona?

A hidromorfona tem relato na literatura de causar hipertermia pós-operatória em gatos mesmo em doses clínicas padrão. A relevância clínica exata ainda é discutida, mas é um efeito documentado nessa espécie que não aparece da mesma forma em cães.

Por que gatos esfriam mais durante a cirurgia que cães do mesmo porte?

Pela relação entre superfície corporal e volume: gatos perdem calor proporcionalmente mais rápido, o que reforça a importância de iniciar o aquecimento ativo desde o começo do procedimento, não só quando a temperatura já está baixa.

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Sobre o autor: Dr. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fonte: Snyder LBC, Johnson RA (eds). Canine and Feline Anesthesia and Co-Existing Disease. Wiley-Blackwell, 2015.