Protocolo anestésico: o que muda entre cães e gatos
Copiar o protocolo de um cão para um gato — só ajustando a dose pelo peso — é um dos erros mais silenciosos da anestesia veterinária. Gatos não são "cães pequenos": metabolizam certos fármacos de forma mais lenta e inconsistente, respondem de forma diferente a opioides específicos e perdem calor corporal mais rápido. Nenhuma dessas diferenças aparece só "olhando o peso" do paciente.
Resumo
- Gatos têm metabolismo mais lento e inconsistente de AINEs, principalmente por glucuronidação — uso crônico (+5 dias) tem mais risco nessa espécie.
- Hidromorfona pode causar hipertermia pós-operatória em gatos em doses clínicas padrão, algo não relatado da mesma forma em cães.
- Gatos perdem calor mais rápido que cães de porte comparável, pela relação superfície/volume corporal.
- Gatos entubados têm risco específico de lesão traqueal por rotação do tubo com o cuff insuflado.
Farmacocinética: por que "mesma dose por kg" não é regra
A diferença mais documentada está no metabolismo de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Gatos têm vias de metabolização e excreção mais lentas e inconsistentes que outras espécies, principalmente por glucuronidação — e o uso crônico (mais de 5 dias) tende a ser associado a mais risco nessa espécie do que em cães. Isso não contraindica o AINE em gatos, mas muda o intervalo de dose, a duração do tratamento e a necessidade de monitorar função renal antes de repetir a prescrição.
Opioides: efeitos que aparecem só numa das espécies
Hidromorfona e oximorfona têm perfis muito parecidos entre cães e gatos como analgésicos plenos-agonistas — mas a hidromorfona tem relato de causar hipertermia pós-operatória em gatos em doses clínicas padrão, um efeito que não aparece documentado da mesma forma em cães (a relevância clínica exata ainda é discutida na literatura). Já a morfina e a hidromorfona podem causar ofegação (panting) em cães, um efeito indesejado em procedimentos que exigem sedação estável — outro exemplo de resposta espécie-específica ao mesmo fármaco.
Termorregulação: gatos esfriam mais rápido
Pela relação entre superfície corporal e volume, gatos perdem calor mais rapidamente que cães de porte semelhante durante a anestesia. Como a hipotermia intraoperatória atrasa o metabolismo hepático dos anestésicos e prolonga a recuperação, vale antecipar o aquecimento ativo em gatos desde o início do procedimento, não só quando a temperatura já caiu.
Vias aéreas: cuidado extra na espécie felina
Gatos entubados têm risco específico de lesão traqueal por rotação do tubo endotraqueal com o cuff relativamente insuflado — por isso a recomendação de sempre desconectar o tubo do circuito antes de reposicionar o paciente, um cuidado menos crítico (embora ainda relevante) em cães de porte maior.
Comparativo rápido
| Cães | Gatos | |
|---|---|---|
| Metabolismo de AINEs | Mais previsível, janela terapêutica mais ampla | Mais lento e inconsistente (glucuronidação) — cautela em uso crônico |
| Hidromorfona | Pode causar ofegação (panting) | Relato de hipertermia pós-operatória em dose padrão |
| Perda de temperatura | Mais lenta (relação superfície/volume menor) | Mais rápida — aquecimento ativo desde o início |
| Risco na via aérea | Menor, mas presente | Lesão traqueal por rotação do tubo com cuff insuflado |
| Fluidoterapia basal (hígido) | ~5 mL/kg/h | ~3 mL/kg/h |
Por que isso importa na ficha anestésica
Um protocolo pensado "por espécie" só funciona se a ficha registrar a espécie, o peso e o fármaco com precisão suficiente para cruzar com o histórico depois — inclusive para notar se um gato específico tende a apresentar algum desses efeitos espécie-típicos em procedimentos futuros. Isso é outro argumento a favor do registro digital sobre o papel: procurar um padrão em fichas de papel de procedimentos anteriores é impraticável.
Perguntas frequentes
Gatos podem receber os mesmos AINEs que cães?
Sim, mas com mais cautela: gatos metabolizam AINEs de forma mais lenta e inconsistente (principalmente por glucuronidação), e o uso por mais de 5 dias seguidos tende a ter mais risco nessa espécie. Monitoração de função renal é recomendada antes de repetir a prescrição.
Por que meu gato ficou com febre depois da anestesia com hidromorfona?
A hidromorfona tem relato na literatura de causar hipertermia pós-operatória em gatos mesmo em doses clínicas padrão. A relevância clínica exata ainda é discutida, mas é um efeito documentado nessa espécie que não aparece da mesma forma em cães.
Por que gatos esfriam mais durante a cirurgia que cães do mesmo porte?
Pela relação entre superfície corporal e volume: gatos perdem calor proporcionalmente mais rápido, o que reforça a importância de iniciar o aquecimento ativo desde o começo do procedimento, não só quando a temperatura já está baixa.
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