30 de julho de 2026 · Farmacocinética · Leitura de 7 min · Por Dr. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

TCI (Anestesia Alvo-Controlada) em cães e gatos: o que é e como funciona

Controlar a concentração de um anestésico no sangue — e não apenas a velocidade em que ele é infundido — é a ideia central da TCI (Target-Controlled Infusion). Em vez de definir uma taxa em mg/kg/h e ajustá-la por tentativa e erro, o anestesista define uma concentração-alvo e um algoritmo farmacocinético calcula, em tempo real, a taxa de infusão necessária para atingi-la e mantê-la.

Resumo

  • TIVA é a categoria (anestesia só por via intravenosa); CRI e TCI são duas formas de infundir dentro dela.
  • CRI controla a taxa (mL/h fixa); TCI controla a concentração-alvo, recalculando a taxa continuamente.
  • A TCI veterinária não é uma cópia da TCI humana — desde 2016 existem modelos farmacocinéticos desenvolvidos com dados reais de cães e gatos.
  • O motor por trás da bomba é um modelo de 3 compartimentos, resolvido a cada 8–10 segundos pelo algoritmo de Bailey-Shafer.

TIVA, CRI e TCI: três termos que se confundem

Esses três termos são frequentemente misturados na rotina clínica:

TécnicaO que éO que o anestesista controla
TIVACategoria ampla: qualquer protocolo mantido exclusivamente por via intravenosa, sem inalatórioA escolha de fármacos e a via
CRIUma forma de TIVA com infusão em taxa fixa (mg/kg/h)A taxa de infusão
TCIUma forma de TIVA em que um algoritmo ajusta a taxa continuamenteA concentração-alvo desejada

Em outras palavras: CRI controla a entrada do fármaco; TCI controla a consequência dessa entrada. A TCI é, na prática, uma CRI dinâmica, recalculada a cada poucos segundos por um modelo farmacocinético compartimental.

Comparação entre CRI e TCI: na CRI a velocidade de infusão é fixa e a concentração plasmática resultante varia ao longo do tempo (padrão dente de serra); na TCI a velocidade é ajustada continuamente pelo algoritmo para manter a concentração-alvo constante.
Na CRI, a velocidade é fixa e a concentração plasmática oscila. Na TCI, a velocidade varia para manter a concentração constante no alvo definido.

Um pouco de história

A ideia de manter uma concentração plasmática estável não é nova, mas sua execução automatizada só se tornou viável com o avanço da farmacocinética de compartimentos e da computação embarcada:

Essa linha do tempo importa clinicamente: até 2016, qualquer TCI em cães dependia de extrapolar modelos humanos por peso — uma prática reconhecidamente imprecisa, já que a farmacocinética de propofol e fentanil varia entre espécies. Hoje existe uma base científica própria para cães e gatos, que detalhamos no artigo sobre os modelos de Cattai.

A matemática por trás da bomba

O coração de qualquer sistema de TCI é o modelo farmacocinético de três compartimentos, que descreve o corpo como três volumes interligados:

Modelo de 3 compartimentos: V1 (compartimento central, plasma e órgãos bem perfundidos), V2 (compartimento periférico rápido, músculos) e V3 (compartimento periférico lento, tecido adiposo), interligados pelas constantes k12, k21, k13, k31, com clearance (CL) a partir de V1.
A transferência entre compartimentos é descrita por constantes de velocidade (k12, k21, k13, k31); k10 representa a eliminação a partir de V1.

O microprocessador da bomba resolve continuamente esse sistema de equações:

1
Recebe o peso do paciente e os parâmetros do modelo escolhido.
2
Recebe a concentração-alvo definida pelo anestesista.
3
Calcula, a cada 8–10 segundos, a massa de fármaco necessária para manter V1 no alvo, considerando o que já foi redistribuído e eliminado.
4
Ajusta a taxa de infusão da bomba de seringa de acordo.

Esse processo é conhecido como algoritmo de Bailey-Shafer, padrão nos sistemas comerciais de TCI, incluindo os adaptados para uso veterinário.

Importante: a qualidade da TCI depende inteiramente do modelo farmacocinético usado. Um modelo mal ajustado à espécie ou à população do paciente gera um alvo teórico que não corresponde à realidade clínica — por isso o próximo artigo desta série é dedicado só aos modelos validados especificamente em cães e gatos.

Perguntas frequentes

TCI é a mesma coisa que TIVA?

Não. TIVA é a categoria (qualquer anestesia mantida só por via intravenosa). TCI é uma forma específica de administrar essa infusão, controlando a concentração-alvo em vez da taxa.

Qualquer bomba de seringa faz TCI?

Não. É preciso hardware e software que rodem o algoritmo farmacocinético do modelo escolhido — a bomba comum de taxa fixa não calcula isso sozinha.

A TCI usada em cães é a mesma da medicina humana?

Historicamente sim, por extrapolação — mas desde 2016 existem modelos farmacocinéticos desenvolvidos com dados reais de cães e gatos, mais precisos que a extrapolação de modelos humanos.

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Sobre o autor: Dr. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.