TCI (Anestesia Alvo-Controlada) em cães e gatos: o que é e como funciona
Controlar a concentração de um anestésico no sangue — e não apenas a velocidade em que ele é infundido — é a ideia central da TCI (Target-Controlled Infusion). Em vez de definir uma taxa em mg/kg/h e ajustá-la por tentativa e erro, o anestesista define uma concentração-alvo e um algoritmo farmacocinético calcula, em tempo real, a taxa de infusão necessária para atingi-la e mantê-la.
Resumo
- TIVA é a categoria (anestesia só por via intravenosa); CRI e TCI são duas formas de infundir dentro dela.
- CRI controla a taxa (mL/h fixa); TCI controla a concentração-alvo, recalculando a taxa continuamente.
- A TCI veterinária não é uma cópia da TCI humana — desde 2016 existem modelos farmacocinéticos desenvolvidos com dados reais de cães e gatos.
- O motor por trás da bomba é um modelo de 3 compartimentos, resolvido a cada 8–10 segundos pelo algoritmo de Bailey-Shafer.
TIVA, CRI e TCI: três termos que se confundem
Esses três termos são frequentemente misturados na rotina clínica:
| Técnica | O que é | O que o anestesista controla |
|---|---|---|
| TIVA | Categoria ampla: qualquer protocolo mantido exclusivamente por via intravenosa, sem inalatório | A escolha de fármacos e a via |
| CRI | Uma forma de TIVA com infusão em taxa fixa (mg/kg/h) | A taxa de infusão |
| TCI | Uma forma de TIVA em que um algoritmo ajusta a taxa continuamente | A concentração-alvo desejada |
Em outras palavras: CRI controla a entrada do fármaco; TCI controla a consequência dessa entrada. A TCI é, na prática, uma CRI dinâmica, recalculada a cada poucos segundos por um modelo farmacocinético compartimental.
Um pouco de história
A ideia de manter uma concentração plasmática estável não é nova, mas sua execução automatizada só se tornou viável com o avanço da farmacocinética de compartimentos e da computação embarcada:
- 1981 — Schwilden descreve o primeiro algoritmo capaz de calcular, em tempo real, a infusão necessária para atingir uma concentração-alvo.
- 1996 — lançamento do Diprifusor, primeiro sistema comercial de TCI, baseado no modelo humano de Marsh.
- 2001 — Beths et al. testam a TCI em cães usando modelos humanos adaptados por peso, com resultados heterogêneos.
- 2016–2019 — Cattai e colaboradores publicam os primeiros modelos farmacocinéticos de propofol desenvolvidos com dados reais de gatos e cães, respectivamente.
- 2022/2023 — o mesmo grupo publica o primeiro modelo de fentanil por TCI otimizado por covariáveis em cães.
Essa linha do tempo importa clinicamente: até 2016, qualquer TCI em cães dependia de extrapolar modelos humanos por peso — uma prática reconhecidamente imprecisa, já que a farmacocinética de propofol e fentanil varia entre espécies. Hoje existe uma base científica própria para cães e gatos, que detalhamos no artigo sobre os modelos de Cattai.
A matemática por trás da bomba
O coração de qualquer sistema de TCI é o modelo farmacocinético de três compartimentos, que descreve o corpo como três volumes interligados:
- V1 (compartimento central): sangue e órgãos ricamente perfundidos (coração, cérebro, rins, fígado) — onde a concentração é medida/estimada.
- V2 (compartimento periférico rápido): tecidos moderadamente perfundidos (músculo).
- V3 (compartimento periférico lento): tecidos pouco perfundidos (gordura).
O microprocessador da bomba resolve continuamente esse sistema de equações:
Esse processo é conhecido como algoritmo de Bailey-Shafer, padrão nos sistemas comerciais de TCI, incluindo os adaptados para uso veterinário.
Perguntas frequentes
TCI é a mesma coisa que TIVA?
Não. TIVA é a categoria (qualquer anestesia mantida só por via intravenosa). TCI é uma forma específica de administrar essa infusão, controlando a concentração-alvo em vez da taxa.
Qualquer bomba de seringa faz TCI?
Não. É preciso hardware e software que rodem o algoritmo farmacocinético do modelo escolhido — a bomba comum de taxa fixa não calcula isso sozinha.
A TCI usada em cães é a mesma da medicina humana?
Historicamente sim, por extrapolação — mas desde 2016 existem modelos farmacocinéticos desenvolvidos com dados reais de cães e gatos, mais precisos que a extrapolação de modelos humanos.
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