30 de julho de 2026 · Farmacocinética · Leitura de 9 min · Por Dr. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Modelos farmacocinéticos de Cattai para TCI em cães e gatos

Por muito tempo, a TCI veterinária dependeu de modelos humanos adaptados por peso — uma extrapolação reconhecidamente imprecisa. Desde 2016, Andrea Cattai e colaboradores (Universidade de Pádua) publicaram os únicos modelos farmacocinéticos de propofol e fentanil desenvolvidos e validados com dados reais de cães e gatos anestesiados. Este artigo reúne os parâmetros desses modelos.

Resumo

  • Propofol em gatos (2016): modelo de 3 compartimentos escalado só por peso, pressupõe pré-medicação específica.
  • Propofol em cães (2019): modelo otimizado por peso, sexo, idade relativa ao porte e pré-medicação — dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas diferentes.
  • Fentanil em cães (2022/2023): 3 compartimentos, peso e sexo afetam o volume central; coeficientes finais ainda não publicados em acesso aberto.
  • Nenhum dos três modelos tem ke0 validado — a TCI veterinária opera hoje só no modo plasmático.
O Sistema Cattai em cinco etapas: desenvolvimento (dados experimentais em cães e gatos), construção do modelo (3 compartimentos + metabolismo), validação (comparação entre concentração prevista e observada), desempenho (alta precisão e baixa tendência ao erro) e implementação (modelo incorporado às bombas de TCI veterinárias).
As cinco etapas por trás de cada modelo: dados experimentais, construção do modelo compartimental, validação estatística, avaliação de desempenho e, só então, incorporação a um sistema de TCI.

Propofol em gatos (Cattai et al., 2016)

Modelo de 3 compartimentos, alvo plasmático, com parâmetros fixos escalados só por peso corporal (L/kg):

ParâmetroValor
V10,35 L/kg
k100,06 /min
k120,10 /min
k210,40 /min
k130,04 /min
k310,01 /min

Alvos recomendados no estudo original: indução em torno de 6 µg/mL, manutenção entre 5–8 µg/mL. O modelo pressupõe um gato pré-medicado (metadona + medetomidina + cetamina) — usá-lo sem essa pré-medicação pode gerar alvos imprecisos, já que o estudo não avaliou outros protocolos. Não inclui ke0.

Propofol em cães (Cattai et al., 2019)

Modelo mais sofisticado, otimizado por covariáveis individuais — peso, sexo, idade relativa ao porte e tipo de pré-medicação. Os parâmetros de troca entre compartimentos são fixos, mas o volume central (V1) e a eliminação (k10, k13) variam por paciente:

Parâmetros fixos: k12 = 0,544 · k21 = 0,228 · k31 = 0,00993 (min⁻¹)

V1 (L) = 1,48 × [1 + 0,0933 × (Peso − 12,25)]
k10 = 0,382 × [1 − 0,0111 × (Peso − 12,25)] × K10PR1 × K10AG2
k13 = 0,129 × K13SE1 × K13AG1

Multiplicadores de covariáveis:

Categorias de "idoso" por porte: pequeno (≤9 kg) a partir de 10 anos; médio-inferior (≤25 kg) a partir de 9 anos; médio-superior (≤40 kg) a partir de 8 anos; gigante (>40 kg) a partir de 7 anos (Age_size1; Age_size2 soma mais 1 ano a cada categoria).

Alvos: indução e manutenção 4–6,5 µg/mL, extubação em torno de 1,6 µg/mL. Taxa máxima de infusão com propofol a 1%: 250 mL/h (<10 kg), 350 mL/h (10–15 kg), 500 mL/h (>15 kg). Também sem ke0 próprio.

Na prática: o mesmo peso gera valores diferentes de k10 e k13 dependendo de sexo e pré-medicação — dois cães de 15 kg podem precisar de taxas de manutenção diferentes para o mesmo alvo plasmático. Veja o cálculo completo no artigo com exemplos passo a passo.

Fentanil em cães (Cattai et al., 2022/2023)

O modelo de fentanil previamente disponível (Sano et al., 2006, 2 compartimentos) mostrou desempenho preditivo clinicamente inaceitável quando testado prospectivamente em cães anestesiados. Cattai et al. desenvolveram então um modelo de 3 compartimentos, no qual peso e sexo afetam o volume central — refinamento conceitualmente parecido com o do propofol canino. A adição dessas covariáveis reduziu o valor da função objetivo de −340,18 para −448,34, e o erro residual absoluto mediano de 38,6% para 20,3%. Infusões com concentrações medidas de até 5,4 ng/mL resultaram em anestesia estável e recuperações tranquilas em cães com sevoflurano.

Coeficientes ainda não disponíveis: os valores finais de V1, k10, k12, k21, k13, k31 e multiplicadores estão publicados só no texto integral (Cattai et al., Vet Anaesth Analg. 2023;50(1):31-40, DOI: 10.1016/j.vaa.2021.08.049), hoje restrito por paywall. Seguimos a regra de nunca publicar coeficiente farmacocinético não verificado na fonte primária — assim que tivermos acesso, este artigo é atualizado.

Meia-vida contextual: por que o fentanil é mais previsível em cães

Um estudo complementar ajuda a entender por que a infusão de fentanil tende a ser mais previsível em cães do que em humanos: Iizuka & Nishimura (2015) calcularam a meia-vida contextual (CSHT) do fentanil em cães — o tempo para a concentração central cair pela metade após o fim da infusão, considerando a duração prévia.

ModeloEspécieCSHT em equilíbrio
Sano et al. (2 compartimentos)Cão31,3 min
Murphy et al. (3 compartimentos)Cão69,2 min
Scott & Stanski (3 compartimentos)Humano306,5 min
Meia-vida contextual (CSHT) em função da duração da infusão para diferentes fármacos: propofol, alfaxalona, remifentanil, fentanil e dexmedetomidina.
Conceito geral de CSHT (dados humanos, adaptado de Eleveld) — quanto maior a lipossolubilidade e o volume de distribuição, maior a CSHT. Os valores caninos específicos estão na tabela acima.

Mesmo com infusões prolongadas, a CSHT em cães fica muito abaixo da humana — os autores atribuem isso a uma razão de "condutância" entre compartimentos diferente entre espécies (1,8 no cão vs. 2,9 no humano). Na prática: o fentanil não se acumula tanto em cães, o que dá suporte farmacocinético a recuperações previsíveis mesmo em cirurgias longas.

Nenhum dos três modelos inclui ke0 — a TCI veterinária opera hoje só no modo plasmático, sem a sofisticação da TCI por sítio de efeito usada em humanos. Detalhamos essa diferença no artigo sobre ke0.

Perguntas frequentes

Posso usar o modelo de propofol em gatos sem a pré-medicação do estudo original?

Não é recomendado. O modelo foi validado só em gatos pré-medicados com metadona + medetomidina + cetamina — usá-lo com outro protocolo pode gerar alvo impreciso.

Por que o modelo de fentanil canino ainda não está com os coeficientes publicados aqui?

O texto integral do artigo está atrás de paywall. Só o abstract é público. Não publicamos coeficiente farmacocinético sem verificar na fonte primária.

Existe modelo de Cattai para gatos com fentanil?

Não até a publicação deste artigo — o Sistema Cattai cobre hoje propofol em cães e gatos, e fentanil só em cães.

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Sobre o autor: Dr. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.