Modelos farmacocinéticos de Cattai para TCI em cães e gatos
Por muito tempo, a TCI veterinária dependeu de modelos humanos adaptados por peso — uma extrapolação reconhecidamente imprecisa. Desde 2016, Andrea Cattai e colaboradores (Universidade de Pádua) publicaram os únicos modelos farmacocinéticos de propofol e fentanil desenvolvidos e validados com dados reais de cães e gatos anestesiados. Este artigo reúne os parâmetros desses modelos.
Resumo
- Propofol em gatos (2016): modelo de 3 compartimentos escalado só por peso, pressupõe pré-medicação específica.
- Propofol em cães (2019): modelo otimizado por peso, sexo, idade relativa ao porte e pré-medicação — dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas diferentes.
- Fentanil em cães (2022/2023): 3 compartimentos, peso e sexo afetam o volume central; coeficientes finais ainda não publicados em acesso aberto.
- Nenhum dos três modelos tem ke0 validado — a TCI veterinária opera hoje só no modo plasmático.
Propofol em gatos (Cattai et al., 2016)
Modelo de 3 compartimentos, alvo plasmático, com parâmetros fixos escalados só por peso corporal (L/kg):
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| V1 | 0,35 L/kg |
| k10 | 0,06 /min |
| k12 | 0,10 /min |
| k21 | 0,40 /min |
| k13 | 0,04 /min |
| k31 | 0,01 /min |
Alvos recomendados no estudo original: indução em torno de 6 µg/mL, manutenção entre 5–8 µg/mL. O modelo pressupõe um gato pré-medicado (metadona + medetomidina + cetamina) — usá-lo sem essa pré-medicação pode gerar alvos imprecisos, já que o estudo não avaliou outros protocolos. Não inclui ke0.
Propofol em cães (Cattai et al., 2019)
Modelo mais sofisticado, otimizado por covariáveis individuais — peso, sexo, idade relativa ao porte e tipo de pré-medicação. Os parâmetros de troca entre compartimentos são fixos, mas o volume central (V1) e a eliminação (k10, k13) variam por paciente:
Parâmetros fixos: k12 = 0,544 · k21 = 0,228 · k31 = 0,00993 (min⁻¹)
Multiplicadores de covariáveis:
- K10PR1 = 1,209 se pré-medicado com acepromazina + metadona (senão, 1)
- K10AG2 = 1,521 se "idoso" pela categoria Age_size2 (senão, 1)
- K13SE1 = 0,655 se fêmea (senão, 1, para machos)
- K13AG1 = 1,347 se "idoso" pela categoria Age_size1 (senão, 1)
Categorias de "idoso" por porte: pequeno (≤9 kg) a partir de 10 anos; médio-inferior (≤25 kg) a partir de 9 anos; médio-superior (≤40 kg) a partir de 8 anos; gigante (>40 kg) a partir de 7 anos (Age_size1; Age_size2 soma mais 1 ano a cada categoria).
Alvos: indução e manutenção 4–6,5 µg/mL, extubação em torno de 1,6 µg/mL. Taxa máxima de infusão com propofol a 1%: 250 mL/h (<10 kg), 350 mL/h (10–15 kg), 500 mL/h (>15 kg). Também sem ke0 próprio.
Na prática: o mesmo peso gera valores diferentes de k10 e k13 dependendo de sexo e pré-medicação — dois cães de 15 kg podem precisar de taxas de manutenção diferentes para o mesmo alvo plasmático. Veja o cálculo completo no artigo com exemplos passo a passo.
Fentanil em cães (Cattai et al., 2022/2023)
O modelo de fentanil previamente disponível (Sano et al., 2006, 2 compartimentos) mostrou desempenho preditivo clinicamente inaceitável quando testado prospectivamente em cães anestesiados. Cattai et al. desenvolveram então um modelo de 3 compartimentos, no qual peso e sexo afetam o volume central — refinamento conceitualmente parecido com o do propofol canino. A adição dessas covariáveis reduziu o valor da função objetivo de −340,18 para −448,34, e o erro residual absoluto mediano de 38,6% para 20,3%. Infusões com concentrações medidas de até 5,4 ng/mL resultaram em anestesia estável e recuperações tranquilas em cães com sevoflurano.
Meia-vida contextual: por que o fentanil é mais previsível em cães
Um estudo complementar ajuda a entender por que a infusão de fentanil tende a ser mais previsível em cães do que em humanos: Iizuka & Nishimura (2015) calcularam a meia-vida contextual (CSHT) do fentanil em cães — o tempo para a concentração central cair pela metade após o fim da infusão, considerando a duração prévia.
| Modelo | Espécie | CSHT em equilíbrio |
|---|---|---|
| Sano et al. (2 compartimentos) | Cão | 31,3 min |
| Murphy et al. (3 compartimentos) | Cão | 69,2 min |
| Scott & Stanski (3 compartimentos) | Humano | 306,5 min |
Mesmo com infusões prolongadas, a CSHT em cães fica muito abaixo da humana — os autores atribuem isso a uma razão de "condutância" entre compartimentos diferente entre espécies (1,8 no cão vs. 2,9 no humano). Na prática: o fentanil não se acumula tanto em cães, o que dá suporte farmacocinético a recuperações previsíveis mesmo em cirurgias longas.
Perguntas frequentes
Posso usar o modelo de propofol em gatos sem a pré-medicação do estudo original?
Não é recomendado. O modelo foi validado só em gatos pré-medicados com metadona + medetomidina + cetamina — usá-lo com outro protocolo pode gerar alvo impreciso.
Por que o modelo de fentanil canino ainda não está com os coeficientes publicados aqui?
O texto integral do artigo está atrás de paywall. Só o abstract é público. Não publicamos coeficiente farmacocinético sem verificar na fonte primária.
Existe modelo de Cattai para gatos com fentanil?
Não até a publicação deste artigo — o Sistema Cattai cobre hoje propofol em cães e gatos, e fentanil só em cães.
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