30 de julho de 2026 · Cálculos · Leitura de 7 min · Por Dr. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Como calcular TCI de propofol em cães e gatos: exemplos passo a passo

Os modelos de Cattai só são úteis se souberem ser aplicados. Vamos calcular, com números reais, a dose de indução e os parâmetros individualizados de dois casos hipotéticos — uma gata e um cão — mostrando exatamente onde cada covariável entra na conta.

Resumo

  • A dose de bolus de indução é: concentração-alvo × V1.
  • Em gatos, V1 escala só por peso (0,35 L/kg); em cães, V1 e a eliminação variam por sexo, idade relativa ao porte e pré-medicação.
  • Dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas de manutenção diferentes para o mesmo alvo plasmático.
  • A bomba recalcula a taxa continuamente depois do bolus — o cálculo manual serve para entender a lógica, não substitui o motor da TCI.
A jornada de uma molécula de propofol: da veia (0s) ao coração (5s), pulmões (15s), cérebro (30s) e músculo (1-5min), com distribuição para gordura, fígado e rins ao longo de minutos, até a eliminação após mais de 60 minutos.
Do bolus à eliminação: a molécula de propofol se distribui em segundos e é eliminada ao longo de dezenas de minutos — é essa dinâmica que o modelo compartimental descreve matematicamente.

Exemplo 1 — Gata, 4 kg, pré-medicada (metadona + medetomidina + cetamina)

Usando o modelo felino (Cattai, 2016), onde V1 = 0,35 L/kg:

V1 = 0,35 × 4 = 1,4 L (1.400 mL)

Para uma concentração-alvo de indução de 6 µg/mL, a massa de propofol necessária para "encher" o compartimento central até esse alvo é:

Dosebolus = Cpalvo × V1 = 6 µg/mL × 1.400 mL = 8,4 mg

A partir daí, a bomba passa a infundir continuamente, recalculando a taxa a cada poucos segundos para compensar a redistribuição (k12, k21, k13, k31) e a eliminação (k10), mantendo a manutenção entre 5–8 µg/mL conforme a resposta clínica.

Exemplo 2 — Cão, fêmea, 15 kg, sem pré-medicação com acepromazina + metadona, adulto jovem

Usando o modelo canino (Cattai, 2019):

1
V1 = 1,48 × [1 + 0,0933 × (15 − 12,25)] = 1,48 × 1,2566 ≈ 1,86 L
2
k10 = 0,382 × [1 − 0,0111 × (15 − 12,25)] × 1 × 1 ≈ 0,370 min⁻¹
(K10PR1 = 1, sem pré-medicação com acepromazina+metadona; K10AG2 = 1, não é "idoso" pela categoria do modelo)
3
k13 = 0,129 × 0,655 × 1 ≈ 0,0845 min⁻¹
(K13SE1 = 0,655 por ser fêmea; K13AG1 = 1, não é "idoso" pela categoria correspondente)

Note como o mesmo peso corporal (15 kg) geraria, em um macho com pré-medicação de acepromazina+metadona, valores diferentes de k10 e k13 — mudando a taxa de manutenção calculada pela bomba, mesmo com a mesma concentração-alvo. Esse é o ganho concreto de um modelo otimizado por covariáveis sobre um modelo só escalado por peso: dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas de infusão diferentes para atingir o mesmo alvo plasmático.

Para este cão, os alvos recomendados seriam indução e manutenção entre 4–6,5 µg/mL, extubação em torno de 1,6 µg/mL, e taxa máxima de infusão de 350 mL/h de propofol a 1% (faixa 10–15 kg).

Segurança: estes são exemplos aritméticos de aplicação dos modelos publicados, não recomendação de dose para um paciente real. Os alvos de concentração devem sempre ser ajustados pela resposta clínica individual, e qualquer protocolo deve ser conferido em referência atualizada antes do uso.

O que a literatura mostra sobre a técnica

Beths et al. (2001) já demonstravam, com o modelo humano de Marsh adaptado, que a TCI de propofol era exequível em cães, mas com desempenho preditivo imperfeito — motivando o desenvolvimento de modelos próprios. Cattai et al. (2016, 2019) validaram prospectivamente seus modelos em gatos e cães, com desempenho preditivo clinicamente aceitável quando os parâmetros e covariáveis corretos são usados. Já Cattai et al. (2022/2023) demonstraram que o modelo de fentanil de Sano (2006) — até então única opção — não é clinicamente aceitável para TCI em cães, reforçando a mesma mensagem: modelos farmacocinéticos precisam ser validados na espécie, e idealmente na população de pacientes em que serão usados.

Perguntas frequentes

Preciso calcular isso manualmente toda vez?

Não — o objetivo aqui é entender a lógica por trás do número. Na prática, um sistema de TCI ou uma calculadora integrada à ficha anestésica faz essa conta automaticamente a partir do peso, sexo e pré-medicação informados.

O que muda se eu usar o peso errado?

V1 e, no modelo canino, também k10 e k13 dependem diretamente do peso — um peso desatualizado (ex.: peso de consulta anterior) muda a dose de bolus e a taxa de manutenção calculadas.

Esses exemplos servem para gatos e cães de qualquer porte?

A fórmula é a mesma, mas as categorias de "idoso" no modelo canino mudam conforme o porte (pequeno, médio-inferior, médio-superior, gigante) — vale conferir o artigo com os parâmetros completos para o porte específico do paciente.

Esse cálculo, automático na ficha anestésica

O EasyVet aplica o modelo de Cattai por trás da tela: informe peso, sexo e pré-medicação, e o sistema sugere a dose de indução e a taxa de manutenção, já registradas na linha do tempo do procedimento. Teste grátis por 30 dias.

Começar teste grátis

Sobre o autor: Dr. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.