Como calcular TCI de propofol em cães e gatos: exemplos passo a passo
Os modelos de Cattai só são úteis se souberem ser aplicados. Vamos calcular, com números reais, a dose de indução e os parâmetros individualizados de dois casos hipotéticos — uma gata e um cão — mostrando exatamente onde cada covariável entra na conta.
Resumo
- A dose de bolus de indução é: concentração-alvo × V1.
- Em gatos, V1 escala só por peso (0,35 L/kg); em cães, V1 e a eliminação variam por sexo, idade relativa ao porte e pré-medicação.
- Dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas de manutenção diferentes para o mesmo alvo plasmático.
- A bomba recalcula a taxa continuamente depois do bolus — o cálculo manual serve para entender a lógica, não substitui o motor da TCI.
Exemplo 1 — Gata, 4 kg, pré-medicada (metadona + medetomidina + cetamina)
Usando o modelo felino (Cattai, 2016), onde V1 = 0,35 L/kg:
Para uma concentração-alvo de indução de 6 µg/mL, a massa de propofol necessária para "encher" o compartimento central até esse alvo é:
A partir daí, a bomba passa a infundir continuamente, recalculando a taxa a cada poucos segundos para compensar a redistribuição (k12, k21, k13, k31) e a eliminação (k10), mantendo a manutenção entre 5–8 µg/mL conforme a resposta clínica.
Exemplo 2 — Cão, fêmea, 15 kg, sem pré-medicação com acepromazina + metadona, adulto jovem
Usando o modelo canino (Cattai, 2019):
(K10PR1 = 1, sem pré-medicação com acepromazina+metadona; K10AG2 = 1, não é "idoso" pela categoria do modelo)
(K13SE1 = 0,655 por ser fêmea; K13AG1 = 1, não é "idoso" pela categoria correspondente)
Note como o mesmo peso corporal (15 kg) geraria, em um macho com pré-medicação de acepromazina+metadona, valores diferentes de k10 e k13 — mudando a taxa de manutenção calculada pela bomba, mesmo com a mesma concentração-alvo. Esse é o ganho concreto de um modelo otimizado por covariáveis sobre um modelo só escalado por peso: dois cães do mesmo peso podem precisar de taxas de infusão diferentes para atingir o mesmo alvo plasmático.
Para este cão, os alvos recomendados seriam indução e manutenção entre 4–6,5 µg/mL, extubação em torno de 1,6 µg/mL, e taxa máxima de infusão de 350 mL/h de propofol a 1% (faixa 10–15 kg).
O que a literatura mostra sobre a técnica
Beths et al. (2001) já demonstravam, com o modelo humano de Marsh adaptado, que a TCI de propofol era exequível em cães, mas com desempenho preditivo imperfeito — motivando o desenvolvimento de modelos próprios. Cattai et al. (2016, 2019) validaram prospectivamente seus modelos em gatos e cães, com desempenho preditivo clinicamente aceitável quando os parâmetros e covariáveis corretos são usados. Já Cattai et al. (2022/2023) demonstraram que o modelo de fentanil de Sano (2006) — até então única opção — não é clinicamente aceitável para TCI em cães, reforçando a mesma mensagem: modelos farmacocinéticos precisam ser validados na espécie, e idealmente na população de pacientes em que serão usados.
Perguntas frequentes
Preciso calcular isso manualmente toda vez?
Não — o objetivo aqui é entender a lógica por trás do número. Na prática, um sistema de TCI ou uma calculadora integrada à ficha anestésica faz essa conta automaticamente a partir do peso, sexo e pré-medicação informados.
O que muda se eu usar o peso errado?
V1 e, no modelo canino, também k10 e k13 dependem diretamente do peso — um peso desatualizado (ex.: peso de consulta anterior) muda a dose de bolus e a taxa de manutenção calculadas.
Esses exemplos servem para gatos e cães de qualquer porte?
A fórmula é a mesma, mas as categorias de "idoso" no modelo canino mudam conforme o porte (pequeno, médio-inferior, médio-superior, gigante) — vale conferir o artigo com os parâmetros completos para o porte específico do paciente.
Esse cálculo, automático na ficha anestésica
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