2 de agosto de 2026 · Anestesiologia · Leitura de 13 min · Por Me. Anderson Eberhardt Assumpção (CRMV-SC 7179)

Cal Sodada: Como Funciona o Absorvedor de CO2 (e Por Que a Cor Pode Enganar)

A cal sodada é, provavelmente, o item mais barato e menos glamouroso de todo o circuito de anestesia inalatória — e também um dos mais mal compreendidos. A regra que todo mundo aprende ("troca quando fica roxa") não é falsa, mas é incompleta: existe um fenômeno químico bem documentado que faz a cal esgotada voltar a ficar branca depois de um tempo parada, dando uma falsa sensação de que ainda está boa. E, num extremo bem mais raro mas mais grave, um absorvente ressecado reage com o próprio anestésico inalatório para formar subprodutos tóxicos. Entender a química por trás do canister muda a forma de inspecioná-lo — e de decidir quando trocar.

Resumo

  • A cal sodada absorve CO2 por uma sequência de reações: CO2 + água → ácido carbônico → reage com hidróxido de sódio/potássio → forma carbonato → troca iônica com hidróxido de cálcio (96–98% da composição), regenerando o hidróxido consumido.
  • O indicador de pH violeta de etila muda de branco para violeta conforme a cal se esgota — mas essa cor pode reverter para branco após algumas horas de repouso, mesmo com a cal já exaurida, porque hidróxido não reagido no interior dos grânulos migra de volta à superfície. Por isso a inspeção deve ser feita durante ou logo após o uso, nunca no início do expediente após a máquina ficar parada.
  • O maior risco de um absorvente ressecado não é falha de absorção — é reação química com o próprio anestésico inalatório: com sevoflurano, forma o Composto A (mais em fluxos baixos, cal quente/seca e cal com bário); com isoflurano, enflurano, desflurano e, em menor grau, sevoflurano e halotano, forma monóxido de carbono.
  • Um estudo mostrou que a temperatura do canister é um péssimo indicador da produção de CO: o desflurano gerou a maior concentração de CO com quase nenhum aumento de temperatura, enquanto o sevoflurano gerou um pico de temperatura muito maior produzindo pouquíssimo CO.
  • A causa mais comum de ressecamento é deixar fluxo de gás fresco (oxigênio seco) passando pelo canister sem paciente por longos períodos — por isso a recomendação de segurança é desligar a máquina ao final do expediente, não deixá-la fluindo "em espera".
  • Na prática, a régua de troca combina horas de uso (6 a 10 horas, ou simplificadamente 8 horas/1 semana, o que vier primeiro) com tempo parado (mais de 1 a 2 semanas sem uso já justifica troca, mesmo com cor branca).

A química por trás do canister

A cal sodada é composta, na sua maior parte (96 a 98% do peso seco), por hidróxido de cálcio, com uma pequena fração (2 a 4%) de hidróxido de sódio e/ou potássio. A reação de absorção do CO2 exalado pelo paciente acontece em três etapas: primeiro, o CO2 reage com a água presente na cal formando ácido carbônico; em seguida, esse ácido reage com o hidróxido de sódio (ou potássio), formando carbonato de sódio e água; por fim, ocorre uma troca iônica entre esse carbonato e o hidróxido de cálcio, formando carbonato de cálcio (o produto final, inerte) e regenerando o hidróxido de sódio, que volta a ficar disponível para reagir com mais CO2. O hidróxido de sódio funciona, portanto, como acelerador da reação — é o cálcio que faz o trabalho de absorção em volume, mas é o sódio (ou potássio) que mantém a reação rápida o suficiente para uso clínico.

Evidência: Levy RJ. Anesthesia-related Carbon Monoxide Exposure: Toxicity and Potential Therapy. Anesthesia & Analgesia, 2016;123(3):670-681.

No mercado veterinário brasileiro, a cal sodada costuma ser vendida com teor de umidade entre 16 e 18% — água que não é só necessária para a reação química, mas também contribui para umidificar e aquecer o gás inalado durante a anestesia — e capacidade absortiva de referência de cerca de 26 litros de CO2 por 100 gramas de produto. Os grânulos são desenhados para não formar canais preferenciais quando compactados no canister, o que garantiria uma absorção homogênea; se isso falha (compactação irregular, grânulos quebrados), parte do fluxo pode atravessar o canister sem contato adequado com a cal, reduzindo a absorção efetiva mesmo com cal "boa" ainda disponível.

Evidência: Original Med. Ficha técnica — Cal Sodada (4,3 kg).

O indicador de cor: violeta de etila e sua pegadinha

O corante violeta de etila é sensível ao pH: enquanto a cal sodada mantém hidróxido disponível (pH alto), o indicador permanece branco/incolor; conforme a capacidade de absorção se esgota e o pH cai, ele muda para violeta, sinalizando que a regeneração do hidróxido já não acompanha o consumo. Até aqui, é exatamente a regra que todo profissional aprende.

O detalhe menos conhecido é que essa mudança de cor pode reverter. Cal sodada esgotada, deixada em repouso por algumas horas ou mais, tende a voltar gradualmente à cor branca original — não porque a capacidade de absorção foi restaurada (a cal sodada não se regenera de verdade), mas porque pequenas quantidades de hidróxido não reagido no interior dos grânulos migram lentamente até a superfície, alterando o pH superficial o suficiente para o indicador reverter. Uma cal aparentemente "regenerada" dessa forma volta a esgotar (e a mudar de cor) quase imediatamente ao ser recolocada em uso.

Evidência: Dispomed. How to Detect Soda Lime Exhaustion?

A implicação prática é direta: inspecionar a cor da cal sodada durante ou logo depois do uso é confiável; inspecionar no início do expediente, depois de a máquina ter ficado parada a noite toda ou o fim de semana inteiro, pode mostrar uma cal branca que na verdade já estava esgotada na última vez em que foi usada. Se há qualquer dúvida sobre o histórico de uso recente do canister, o mais seguro é trocar, não confiar na cor observada num equipamento que passou horas em repouso.

Absorvente ressecado: o risco que a maioria não vê

Existe um segundo problema, independente da exaustão por CO2, e ele é mais raro mas potencialmente mais grave: a cal sodada ressecada (com teor de água muito abaixo do normal) reage quimicamente com o próprio anestésico inalatório halogenado que passa por ela — não com o CO2, com o fármaco.

Composto A (sevoflurano)

Com o sevoflurano, essa reação produz o chamado Composto A, um subproduto cuja formação aumenta com a concentração de sevoflurano, diminui com o aumento do fluxo de gás fresco, e aumenta com absorvente mais quente, mais seco, e com uso de cal à base de bário (mais reativa que a cal sodada convencional). O estudo original que caracterizou essa reação, ainda na década de 1990, documentou tanto a formação do Composto A quanto de um segundo subproduto secundário (Composto B) na reação entre sevoflurano e cal sodada.

Evidência: Morio M, Fujii K, Satoh N, et al. Reaction of sevoflurane and its degradation products with soda lime. Toxicity of the byproducts. Anesthesiology, 1992;77(6):1155-1164.

É por essa razão que a bula do sevoflurano recomenda fluxo de gás fresco mínimo — na prática, cerca de 1 L/min para exposições de até 1 hora e 2 L/min para exposições mais longas — como forma de limitar a concentração de Composto A inspirada pelo paciente. Vale o contexto: a maior parte da preocupação histórica com o Composto A vem de estudos em ratos, onde concentrações bem mais altas do que as tipicamente atingidas em fluxos recomendados causaram lesão tubular renal; a relevância clínica em concentrações associadas ao uso recomendado é considerada baixa, mas a recomendação de fluxo mínimo segue válida como margem de segurança — e um absorvente ressecado é exatamente a condição que empurra a produção de Composto A para cima, mesmo dentro dos fluxos recomendados.

Monóxido de carbono (todos os halogenados)

Já a formação de monóxido de carbono (CO) não é exclusividade do sevoflurano: um estudo que testou cinco anestésicos voláteis em cal sodada completamente ressecada encontrou produção mensurável de CO em todos eles, incluindo halotano e sevoflurano — antes considerados "seguros" nesse quesito. As concentrações de pico variaram enormemente por agente: desflurano (14.262 ppm) > enflurano (10.654 ppm) > isoflurano (2.512 ppm) >> halotano (210 ppm) ≈ sevoflurano (121 ppm).

AgenteCO de pico em cal totalmente ressecada
Desflurano≈14.262 ppm
Enflurano≈10.654 ppm
Isoflurano≈2.512 ppm
Halotano≈210 ppm
Sevoflurano≈121 ppm
Evidência: Keijzer C, Perez RSGM, De Lange JJ. Carbon monoxide production from five volatile anesthetics in dry sodalime in a patient model: halothane and sevoflurane do produce carbon monoxide; temperature is a poor predictor of carbon monoxide production. BMC Anesthesiology, 2005;5:6.

O achado mais contraintuitivo desse estudo é justamente o que está no próprio título: a temperatura do canister é um péssimo indicador de quanto CO está sendo produzido. O desflurano produziu a maior concentração de CO com um aumento de temperatura discreto (24,0°C a 32,9°C), enquanto o sevoflurano produziu um salto de temperatura muito mais dramático (26,0°C a 67,7°C) gerando pouquíssimo CO. Ou seja: um canister "quente" não é, por si só, sinal confiável de que há produção significativa de CO — nem um canister morno significa que está tudo bem.

Evidência: Keijzer C, Perez RSGM, De Lange JJ. Carbon monoxide production from five volatile anesthetics in dry sodalime in a patient model. BMC Anesthesiology, 2005;5:6.

Em casos extremos de absorvente muito ressecado combinado a fluxo de gás fresco muito alto, a reação exotérmica entre agente halogenado e absorvente já foi associada a superaquecimento, fumaça e, em relatos raros, incêndio dentro do próprio circuito da máquina de anestesia — motivo pelo qual uma conferência de segurança específica sobre o tema foi convocada pela Anesthesia Patient Safety Foundation nos Estados Unidos.

Evidência: Olympio MA. Carbon Dioxide Absorbent Desiccation Safety Conference Convened by APSF. APSF Newsletter, 2005.

Com que frequência trocar, na prática?

Como a cal se esgota em função do CO2 realmente absorvido (não do calendário), não existe um prazo universal exato — mas a literatura veterinária converge para uma régua prática, combinando horas de uso com tempo parado:

Evidências: Gerigk M. A Practical Guide for Soda Lime Replacement in Veterinary Anesthesia. Midmark, 2025. · Phillips H. Pretty in Pink: Soda Lime. When should it be changed? Australian College of Veterinary Nursing, 2015 (atualizado 2025).

Boas práticas para não ressecar o absorvente

A causa mais comum de ressecamento não é um defeito do produto — é rotina de uso. Deixar o fluxo de gás fresco (que é seco) passando continuamente pelo canister sem paciente conectado, por exemplo durante a noite ou o fim de semana inteiro com a máquina "ligada em espera", seca a cal sodada de forma silenciosa e progressiva, sem qualquer sinal visível até que o próximo uso do sevoflurano ou isoflurano encontre um absorvente já ressecado.

Conclusão

A cal sodada é simples na teoria — hidróxido reage com CO2 — mas tem duas armadilhas práticas que a regra "troca quando fica roxa" não cobre sozinha: a cor pode reverter e enganar quem confia nela depois de um período de repouso, e um absorvente ressecado pode reagir com o próprio anestésico inalatório para produzir Composto A ou monóxido de carbono, riscos que não têm relação com a exaustão de CO2 nem aparecem como mudança de cor. Tratar o canister com a mesma disciplina de manutenção que se dedica ao vaporizador — inspeção no momento certo, troca por rotina e não só por cor, e a máquina desligada quando não está em uso — fecha o ciclo de segurança de todo o sistema de anestesia inalatória, não só de uma peça isolada dele.

Perguntas frequentes

Como funciona a cal sodada?

O CO2 exalado reage com a água da cal formando ácido carbônico, que reage com hidróxido de sódio/potássio formando carbonato e água; o carbonato então troca íons com o hidróxido de cálcio (96–98% da composição), formando carbonato de cálcio e regenerando o hidróxido de sódio para continuar a reação. Um indicador de pH (violeta de etila) muda de branco para violeta conforme a capacidade de absorção se esgota.

Por que o indicador de cor da cal sodada pode enganar?

Porque a cor pode reverter de violeta para branco após algumas horas de repouso, mesmo com a cal já esgotada — hidróxido não reagido no interior dos grânulos migra de volta à superfície e altera o pH local, sem que isso represente regeneração real da capacidade absortiva. Por isso a inspeção deve ser feita durante ou logo após o uso, nunca depois de um período de repouso.

O que é o Composto A e quando ele se forma?

É um subproduto da reação do sevoflurano com a cal sodada, mais formado com maior concentração de sevoflurano, menor fluxo de gás fresco, absorvente mais quente/seco, e cal com bário. Por isso a recomendação de fluxo de gás fresco mínimo de 1 L/min até 1 hora e 2 L/min para exposições mais longas ao sevoflurano.

Absorvente ressecado pode produzir monóxido de carbono?

Sim. Todos os anestésicos halogenados modernos produzem CO ao reagir com cal sodada completamente ressecada, em quantidades variáveis — desflurano produz a maior concentração, seguido de enflurano e isoflurano, com sevoflurano e halotano produzindo bem menos. A temperatura do canister não é um bom indicador de quanto CO está sendo produzido.

Como evitar que o absorvente resseque?

A principal causa é deixar fluxo de gás fresco passando pelo canister sem paciente por longos períodos, como durante a noite. A recomendação é desligar o fluxo e a máquina ao final do expediente, e trocar o absorvente por rotina regular, não só quando a cor indicar esgotamento.

De quanto em quanto tempo devo trocar a cal sodada?

Pelo tempo de uso ativo, a cada 6 a 10 horas de anestesia (varia por fabricante), ou de forma simplificada, a cada 8 horas de uso ou uma vez por semana, o que vier primeiro. Mesmo sem uso, a cal se esgota por exposição ao ar — se o canister ficou parado por mais de 1 a 2 semanas, troque mesmo que a cor ainda pareça branca. Um recipiente aberto costuma ser descartado após 1 mês de armazenamento. Se o ETCO2 do paciente começar a subir, ou cerca de metade do canister já mudou de cor, troque antes do prazo.

Referências

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Sobre o autor: Me. Anderson Eberhardt Assumpção é médico-veterinário graduado pela UFRGS, com residências em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e em Cirurgia e Anestesiologia pela ULBRA, mestre em Ciências da Saúde pela UNISUL, professor de Medicina Veterinária na UNISUL (2013–2022) e do curso de pós-graduação em Anestesiologia do IBMVET. CRMV-SC 7179. Colaborador técnico do EasyVet.

Fontes citadas: Keijzer, Perez & De Lange; Levy; Morio et al.; Olympio (APSF Newsletter); Gerigk (Midmark); Phillips (ACVN); Dispomed; e ficha técnica Original Med — lista completa acima.