Classificação de Risco de Manchester e Mortalidade em Internações Veterinárias
Um estudo com 3.392 internações em três hospitais veterinários do sul de Santa Catarina avaliou se a cor atribuída na triagem — do Sistema de Triagem de Classificação de Risco de Manchester — se relaciona com a mortalidade e o tempo de internação de cães e gatos.
Resumo
O trabalho comparou estratificação de risco, mortalidade e tempo de internação em três hospitais veterinários do sul de Santa Catarina, usando dados do programa Vet Control. A classificação foi feita por médicos veterinários no momento do atendimento, aplicando o Sistema de Triagem de Classificação de Risco de Manchester nos hospitais de Criciúma (HVC), Tubarão (HVT) e Laguna (HVL).
No total, foram analisadas 3.392 internações ao longo de 2022: 1.425 pacientes no HVC (7,4% de óbitos, 2,7 dias de internação em média), 1.372 pacientes no HVT (15% de óbitos, 3,2 dias) e 595 pacientes no HVL (13% de óbitos, 3 dias). Nos três hospitais, houve relação direta entre a gravidade da classificação de risco e a mortalidade: quanto mais crítica a cor atribuída na triagem, maior a proporção de óbitos.
Conclusão: o sistema de classificação de risco utilizado pelos médicos veterinários nos três hospitais avaliados foi um bom preditor de óbito para os pacientes internados.
Por que triagem importa na emergência veterinária
Ainda existem poucos trabalhos sobre como realizar uma triagem adequada nos atendimentos de urgência e emergência em medicina veterinária. Ao mesmo tempo, a demanda por atendimentos que exigem ação imediata só cresce, acompanhando o aumento da população de cães e gatos e do cuidado dedicado a eles.
Hospitais e clínicas que padronizam a classificação de risco de morte conseguem organizar um fluxo de atendimento mais eficiente — como já acontece há décadas na medicina humana. A triagem tem origem em hospitais militares e foi adotada por hospitais civis justamente para reduzir a mortalidade, usando códigos por números, cores, alfabeto ou fitas para indicar a urgência de cada caso.
Os principais sistemas de triagem de cinco níveis usados hoje descendem de uma técnica criada há cerca de 30 anos no Hospital Ipswich, na Austrália (a Ipswich Triage Scale). Ela deu origem ao Australian Triage Scale (ATS), que por sua vez serviu de base para o Manchester Triage Scale (MTS), na Inglaterra, e para o Canadian Triage and Acuity Scale (CTAS), no Canadá.
O que é o Manchester Triage Scale (MTS)
O MTS classifica o paciente em cinco categorias por cor, cada uma associada a um tempo de espera esperado e a um nível de risco:
- Vermelho — emergência, atendimento imediato.
- Laranja — muito urgente.
- Amarelo — urgente.
- Verde — pouco urgente.
- Azul — não urgente.
Na medicina humana, o MTS aloca o paciente em um de 52 fluxogramas conforme a queixa principal, e um algoritmo determina a prioridade considerando os sinais vitais. É usado no Reino Unido, em Portugal e, com adaptações, na Alemanha. Ainda não existe um sistema de triagem validado especificamente para a medicina veterinária, mas boa parte dos sistemas humanos vem sendo aplicada de forma empírica — e a introdução de uma triagem padronizada tende a aumentar a acurácia das consultas e a dar aos veterinários uma terminologia comum para priorizar pacientes críticos.
Metodologia do estudo
O estudo considerou todos os pacientes internados entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2022 nos três hospitais avaliados. Pacientes sem classificação de risco registrada no momento da consulta ou internação foram excluídos da análise. A cor correspondente ao Sistema de Triagem Manchester era registrada pelo médico veterinário diretamente no prontuário do programa Vet Control no momento do atendimento.
Resultados por hospital
Hospital Veterinário de Criciúma (HVC)
De 1.490 pacientes internados, 1.425 tinham classificação de risco registrada. Desses, 73% eram cães e 27% gatos. A mortalidade total foi de 7,4% (7,2% em cães e 8,6% em gatos), com tempo médio de internação de 2,7 dias para ambas as espécies.
| Risco | Nº de pacientes | Óbitos | % de óbitos |
|---|---|---|---|
| Emergência (vermelho) | 77 | 20 | 26% |
| Muita urgência (laranja) | 281 | 59 | 21% |
| Urgência (amarelo) | 751 | 25 | 3% |
| Pouca urgência (verde) | 300 | 2 | 1% |
| Não urgência (azul) | 16 | 0 | 0% |
| Total | 1.425 | 106 | 7,4% |
Hospital Veterinário de Tubarão (HVT)
Foram 1.372 pacientes internados (72% cães, 27% gatos; 1% de exóticos, excluídos da análise). A mortalidade total foi de 15%, com tempo médio de internação de 3,2 dias. Entre os cães, a mortalidade foi de 14% (142 óbitos); entre os gatos, 16% (60 óbitos).
| Risco | Nº de pacientes | Óbitos | % de óbitos |
|---|---|---|---|
| Emergência (vermelho) | 83 | 23 | 28% |
| Muita urgência (laranja) | 96 | 31 | 32% |
| Urgência (amarelo) | 578 | 113 | 20% |
| Pouca urgência (verde) | 474 | 29 | 6% |
| Não urgência (azul) | 129 | 6 | 5% |
| Total | 1.360 | 203 | 15% |
Hospital Veterinário de Laguna (HVL)
Foram 595 pacientes internados (78% cães, 22% gatos). A mortalidade total foi de 13%, com tempo médio de internação de 3 dias — 61 óbitos e 411 altas entre os cães, e 18 óbitos e 118 altas entre os gatos.
| Risco | Nº de pacientes | Óbitos | % de óbitos |
|---|---|---|---|
| Emergência (vermelho) | 13 | 8 | 62% |
| Muita urgência (laranja) | 33 | 23 | 70% |
| Urgência (amarelo) | 312 | 36 | 12% |
| Pouca urgência (verde) | 164 | 10 | 6% |
| Não urgência (azul) | 73 | 0 | 0% |
| Total | 595 | 77 | 13% |
O que os números mostram
A proporção de internações entre cães e gatos foi semelhante nos três hospitais: entre 72% e 78% de cães, e entre 22% e 27% de gatos. A classificação amarela (urgente) foi a mais comum em todos eles — 53% no HVC, 43% no HVT e 52% no HVL.
O padrão mais relevante do estudo aparece nos extremos da escala: entre os pacientes classificados como vermelho (emergência) e laranja (muita urgência), a mortalidade foi de 22% no HVC, 30% no HVT e 67% no HVL. A diferença mais expressiva do HVL pode ser explicada pelo número proporcionalmente menor de pacientes atendidos nessas duas cores mais críticas naquele hospital — uma amostra menor tende a ampliar a variação percentual.
A classificação por cores, quando exibida junto ao prontuário digital no setor de internação, também ajuda a equipe a priorizar atenção e cuidados para os pacientes mais graves. O volume de pacientes classificados como muita urgência e emergência reforça a importância de estruturar salas preparadas para atendimento imediato — incluindo protocolos de parada cardiorrespiratória e capacidade de terapia intensiva.
Conclusão
O sistema de classificação de risco de Manchester, aplicado por médicos veterinários no momento do atendimento nos três hospitais avaliados, mostrou-se um bom preditor de óbito para pacientes internados. Isso reforça o valor de padronizar a triagem — com apoio de um sistema informatizado que registre a cor no prontuário — como ferramenta de gestão de risco e priorização clínica em hospitais e clínicas veterinárias de emergência.
Agradecimentos
Aos médicos veterinários Samuel da Rosa Machado, Vinícius Wischneski e Douglas Rodrigues Vicentin, por tornarem este trabalho possível.
Referências
- BRETON, Amy N. Triage and initial assessment of the Emergency patient. In: NORKUS, Christopher L. Veterinary technician's manual for Small animal Emergency and critical care. Oxford: Wiley-Blackwell, 2012.
- CHRIST, Michael et al. Modern Triage in the Emergency Department. Deutsches Ärzteblatt International, Cologne, v. 107, n. 50, p. 892-898, 2010.
- ESTEVES, Ana Luísa Roque de Andrade. Implementação de um sistema de triagem no hospital veterinário escola da faculdade de medicina veterinária. 2010, 66f. Dissertação (Mestrado Integrado em Medicina Veterinária) — Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Lisboa. Lisboa, 2010.
- FITZGERALD, Gerard et al. Emergency department triage revisited. Emergency Medicine Journal, London, v. 27, n. 2, p. 86-92, 2010.
- RUYS, Laura J. et al. Evaluation of a Veterinary triage list modified from a human five-point triage system in 485 dogs and cats. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care. San Antonio, v. 22, n. 3, p. 303-312.
Sobre os autores
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