27 de julho de 2026 · Protocolos · Leitura de 9 min

Bloqueio Gin & Tonic para TPLO: Comparação com Isquiático, Safeno-Femoral e Femoral Cutâneo Lateral

Revisão de literatura compara o bloqueio interfascial Gin & Tonic — associação do bloqueio da incisura isquiática maior (GIN) com o bloqueio caudal do quadrado lombar (TONIC) — aos bloqueios já consagrados do isquiático, plexo safeno-femoral e femoral cutâneo lateral para cirurgia de TPLO em cães.

Por que a analgesia locorregional importa na TPLO

A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das afecções ortopédicas mais comuns em cães, e a osteotomia e nivelamento do platô tibial (TPLO) segue como o tratamento de escolha para a maioria dos casos (Andrade, 2023; Di Franco et al., 2023). Procedimentos ortopédicos de membro pélvico costumam gerar dor de intensidade moderada a severa, com repercussões comportamentais e fisiológicas que comprometem o pós-operatório quando mal controladas (Zapata et al., 2023).

Os bloqueios locorregionais são hoje rotina na anestesiologia veterinária justamente por reduzirem a nocicepção intraoperatória e a necessidade de resgate analgésico no pós-operatório. Mas a execução exige destreza, equipamento específico e experiência do executor — fatores que explicam por que diferentes técnicas convivem na prática clínica, cada uma com vantagens e limitações distintas (Grubb; Lobprise, 2020).

Anatomia: o plexo lombossacro

Os membros pélvicos recebem inervação sensitiva, motora e autonômica do plexo lombossacro, formado pelos ramos ventrais do quarto, quinto e sexto nervos lombares associados ao plexo sacro (ramos de L6 e L7). Dessa rede derivam os nervos mais visados pelos bloqueios locorregionais: femoral/safeno, isquiático, obturador e femoral cutâneo lateral — cada um responsável por um território sensitivo e motor distinto, o que determina qual porção do membro fica insensibilizada (Portela; Fuensalida; Otero, 2018; Dyce; Sack; Wensing, 2010).

O nervo femoral se origina cranialmente no plexo (L4–L6) e emite o nervo safeno, que inerva a face medial do joelho até o metatarso. O nervo isquiático nasce na porção caudal do tronco (L7), desce protegido pelo trocanter maior do fêmur e se divide em nervo fibular comum e tibial já próximo ao joelho. O obturador compartilha origem com o femoral e segue até o forame obturado, inervando a musculatura abdutora da coxa.

Os bloqueios periféricos clássicos

Plexo safeno-femoral

Insensibiliza a porção medial do joelho até o metatarso e, quando associado ao bloqueio do isquiático, cobre o membro pélvico por inteiro. A abordagem, guiada por ultrassom, localiza o trígono femoral pela artéria femoral e pelo músculo sartório; a agulha é introduzida em direção craniocaudal até o epineuro do complexo safeno-femoral (Boscan, 2012; Feiden et al., 2025).

Nervo isquiático

Pode ser bloqueado em diferentes pontos do trajeto — entre o trocanter maior e a tuberosidade isquiática (abordagem lateral proximal) ou abaixo do bíceps femoral no terço médio da coxa (abordagem lateral média) (Boscan, 2012). Por gerar insensibilização também dos ramos tibial e fibular comum, cobre joelho, tarso e toda a porção distal do membro. É comprovadamente eficaz, e uma meta-análise em humanos citada por Marolf et al. (2019) mostra superioridade da abordagem ecoguiada sobre a neurolocalização.

Femoral cutâneo lateral

Usado como complemento ao bloqueio femoral-safeno e isquiático, cobre apenas dermátomos cutâneos das porções lateral e cranial da coxa — sem analgesia óssea ou de tecidos moles adjacentes. Pode ser feito por referência anatômica pura, sem ultrassom: localiza-se a depressão entre a tuberosidade isquiática e o trocanter maior e introduz-se a agulha pela prega da virilha, com inclinação de 45° (Portela; Fuensalida; Otero, 2018; Feiden et al., 2025).

O bloqueio Gin & Tonic: GIN + TONIC

O bloqueio Gin & Tonic é a associação de duas técnicas interfasciais descritas por Otero et al. (2024): o bloqueio da incisura isquiática maior (GIN), que insensibiliza o tronco sacral na origem (ramos de L4 e L5), e o bloqueio caudal da fáscia do quadrado lombar (C-QLB, ou TONIC), que atinge os nervos do plexo lombar de onde se originam o femoral e o obturador. Juntas, as duas técnicas promovem insensibilização praticamente completa do membro pélvico.

Na técnica, o paciente é posicionado em decúbito lateral com o membro a ser bloqueado para cima. Para o GIN, o transdutor é posicionado no terço médio de uma linha imaginária entre a crista ilíaca e a tuberosidade isquiática, e a agulha é introduzida em plano até o tronco lombossacro. Para o TONIC, o transdutor vai no flanco, cranial e paralelo à crista do ílio, sobre a sexta vértebra lombar (L6) — identificando o quadrado lombar e o transverso do abdômen — e o anestésico local é depositado no plano fascial do quadrado lombar (Otero et al., 2024).

A ideia central por trás dos bloqueios interfasciais é diferente da dos bloqueios perineurais clássicos: ao depositar o anestésico local no plano entre fáscias, a dispersão ao longo dos nervos alvo é desigual e favorece a dessensibilização das fibras C (sensitivas, de menor calibre) em detrimento das fibras A-alfa (motoras, de maior calibre) — o que, na teoria, preserva mais função motora do que um bloqueio perineural direto (Otero et al., 2024).

O que diz a literatura

A bupivacaína segue como fármaco de escolha para bloqueios locorregionais pelo tempo de ação mais longo em relação à lidocaína, podendo chegar a 10 horas de analgesia (Feiden et al., 2025). Zapata et al. (2023) avaliaram dexmedetomidina e dexametasona como adjuvantes em bloqueios de femoral e isquiático: a dexmedetomidina teve melhor resposta analgésica, enquanto a dexametasona reduziu o tempo de ação do bloqueio sem benefício evidente — e ambos os grupos mantiveram redução da função motora no pós-operatório.

Esse bloqueio motor prolongado é justamente o ponto fraco recorrente das técnicas perineurais clássicas. O bloqueio do femoral, por exemplo, causa déficit motor no quadríceps com impacto direto na deambulação pós-operatória (Di Franco et al., 2023). Como alternativa, Di Franco et al. (2023) testaram substituir o femoral pelo bloqueio do obturador associado a safeno e isquiático em 30 cães: a necessidade de resgate com fentanil caiu significativamente frente ao grupo sem bloqueio do obturador, com eficácia analgésica semelhante entre os grupos — mas déficit deambulatório mantido em ambos.

É nesse contexto que o Gin & Tonic aparece como proposta mais recente. Otero et al. (2024) conduziram primeiro um estudo cadavérico comparando a técnica à abordagem parassacral do plexo lombossacro, com resultados indicando dessensibilização mais eficaz dos dermátomos cutâneos de todo o membro pélvico. Em seguida, um estudo piloto com 24 cães pré-medicados com acepromazina ou dexmedetomidina mostrou, na maioria dos animais, bloqueio sensitivo menos intenso associado a preservação das funções motoras — resultado promissor, mas que o próprio autor classifica como preliminar, com limitações que pedem confirmação em ensaios clínicos maiores.

Vale lembrar que os bloqueios de neuroeixo (peridural) continuam amplamente usados por exigirem pouco equipamento e se apoiarem em referência puramente anatômica — mas carregam risco de hematoma subdural, hipotensão, náusea e retenção urinária (McCally et al., 2015). As técnicas periféricas e interfasciais, incluindo o Gin & Tonic, surgem como alternativas mais seguras nesse quesito, ao custo de maior exigência técnica e de equipamento especializado.

Conclusão

Um bloqueio que preserve a função motora sem abrir mão da analgesia pode mudar o desfecho pós-operatório de cirurgias ortopédicas de membro pélvico, especialmente na TPLO — onde a deambulação precoce importa para a recuperação. Os estudos preliminares sobre o Gin & Tonic são promissores nesse sentido, mas ainda é cedo para tratá-lo como substituto definitivo dos bloqueios do isquiático, safeno-femoral e femoral cutâneo lateral: faltam ensaios clínicos prospectivos com amostras maiores para confirmar a real eficácia e a proteção motora observada nos estudos iniciais.

Este conteúdo é uma revisão de literatura com fins informativos e educacionais, baseada no trabalho de conclusão de curso de Gustavo dos Reis Claudino, sob orientação de Anderson Eberhardt Assumpção (Pós-graduação em Anestesiologia Veterinária, Faculdade Qualittas). As técnicas, fármacos e volumes citados são pontos de partida descritos na literatura — não substituem o julgamento clínico do anestesista, que deve ajustar a escolha do bloqueio à espécie, ao porte, ao procedimento e à resposta individual de cada paciente.

Referências

Registre cada bloqueio locorregional direto na ficha

O EasyVet documenta técnica, fármaco, volume e local de cada bloqueio junto com o restante da anestesia — com histórico pronto para consulta e respaldo clínico. Teste grátis por 30 dias, sem cartão de crédito.

Começar teste grátis