Bloqueio Gin & Tonic para TPLO: Comparação com Isquiático, Safeno-Femoral e Femoral Cutâneo Lateral
Revisão de literatura compara o bloqueio interfascial Gin & Tonic — associação do bloqueio da incisura isquiática maior (GIN) com o bloqueio caudal do quadrado lombar (TONIC) — aos bloqueios já consagrados do isquiático, plexo safeno-femoral e femoral cutâneo lateral para cirurgia de TPLO em cães.
Por que a analgesia locorregional importa na TPLO
A ruptura do ligamento cruzado cranial é uma das afecções ortopédicas mais comuns em cães, e a osteotomia e nivelamento do platô tibial (TPLO) segue como o tratamento de escolha para a maioria dos casos (Andrade, 2023; Di Franco et al., 2023). Procedimentos ortopédicos de membro pélvico costumam gerar dor de intensidade moderada a severa, com repercussões comportamentais e fisiológicas que comprometem o pós-operatório quando mal controladas (Zapata et al., 2023).
Os bloqueios locorregionais são hoje rotina na anestesiologia veterinária justamente por reduzirem a nocicepção intraoperatória e a necessidade de resgate analgésico no pós-operatório. Mas a execução exige destreza, equipamento específico e experiência do executor — fatores que explicam por que diferentes técnicas convivem na prática clínica, cada uma com vantagens e limitações distintas (Grubb; Lobprise, 2020).
Anatomia: o plexo lombossacro
Os membros pélvicos recebem inervação sensitiva, motora e autonômica do plexo lombossacro, formado pelos ramos ventrais do quarto, quinto e sexto nervos lombares associados ao plexo sacro (ramos de L6 e L7). Dessa rede derivam os nervos mais visados pelos bloqueios locorregionais: femoral/safeno, isquiático, obturador e femoral cutâneo lateral — cada um responsável por um território sensitivo e motor distinto, o que determina qual porção do membro fica insensibilizada (Portela; Fuensalida; Otero, 2018; Dyce; Sack; Wensing, 2010).
O nervo femoral se origina cranialmente no plexo (L4–L6) e emite o nervo safeno, que inerva a face medial do joelho até o metatarso. O nervo isquiático nasce na porção caudal do tronco (L7), desce protegido pelo trocanter maior do fêmur e se divide em nervo fibular comum e tibial já próximo ao joelho. O obturador compartilha origem com o femoral e segue até o forame obturado, inervando a musculatura abdutora da coxa.
Os bloqueios periféricos clássicos
Plexo safeno-femoral
Insensibiliza a porção medial do joelho até o metatarso e, quando associado ao bloqueio do isquiático, cobre o membro pélvico por inteiro. A abordagem, guiada por ultrassom, localiza o trígono femoral pela artéria femoral e pelo músculo sartório; a agulha é introduzida em direção craniocaudal até o epineuro do complexo safeno-femoral (Boscan, 2012; Feiden et al., 2025).
Nervo isquiático
Pode ser bloqueado em diferentes pontos do trajeto — entre o trocanter maior e a tuberosidade isquiática (abordagem lateral proximal) ou abaixo do bíceps femoral no terço médio da coxa (abordagem lateral média) (Boscan, 2012). Por gerar insensibilização também dos ramos tibial e fibular comum, cobre joelho, tarso e toda a porção distal do membro. É comprovadamente eficaz, e uma meta-análise em humanos citada por Marolf et al. (2019) mostra superioridade da abordagem ecoguiada sobre a neurolocalização.
Femoral cutâneo lateral
Usado como complemento ao bloqueio femoral-safeno e isquiático, cobre apenas dermátomos cutâneos das porções lateral e cranial da coxa — sem analgesia óssea ou de tecidos moles adjacentes. Pode ser feito por referência anatômica pura, sem ultrassom: localiza-se a depressão entre a tuberosidade isquiática e o trocanter maior e introduz-se a agulha pela prega da virilha, com inclinação de 45° (Portela; Fuensalida; Otero, 2018; Feiden et al., 2025).
O bloqueio Gin & Tonic: GIN + TONIC
O bloqueio Gin & Tonic é a associação de duas técnicas interfasciais descritas por Otero et al. (2024): o bloqueio da incisura isquiática maior (GIN), que insensibiliza o tronco sacral na origem (ramos de L4 e L5), e o bloqueio caudal da fáscia do quadrado lombar (C-QLB, ou TONIC), que atinge os nervos do plexo lombar de onde se originam o femoral e o obturador. Juntas, as duas técnicas promovem insensibilização praticamente completa do membro pélvico.
Na técnica, o paciente é posicionado em decúbito lateral com o membro a ser bloqueado para cima. Para o GIN, o transdutor é posicionado no terço médio de uma linha imaginária entre a crista ilíaca e a tuberosidade isquiática, e a agulha é introduzida em plano até o tronco lombossacro. Para o TONIC, o transdutor vai no flanco, cranial e paralelo à crista do ílio, sobre a sexta vértebra lombar (L6) — identificando o quadrado lombar e o transverso do abdômen — e o anestésico local é depositado no plano fascial do quadrado lombar (Otero et al., 2024).
A ideia central por trás dos bloqueios interfasciais é diferente da dos bloqueios perineurais clássicos: ao depositar o anestésico local no plano entre fáscias, a dispersão ao longo dos nervos alvo é desigual e favorece a dessensibilização das fibras C (sensitivas, de menor calibre) em detrimento das fibras A-alfa (motoras, de maior calibre) — o que, na teoria, preserva mais função motora do que um bloqueio perineural direto (Otero et al., 2024).
O que diz a literatura
A bupivacaína segue como fármaco de escolha para bloqueios locorregionais pelo tempo de ação mais longo em relação à lidocaína, podendo chegar a 10 horas de analgesia (Feiden et al., 2025). Zapata et al. (2023) avaliaram dexmedetomidina e dexametasona como adjuvantes em bloqueios de femoral e isquiático: a dexmedetomidina teve melhor resposta analgésica, enquanto a dexametasona reduziu o tempo de ação do bloqueio sem benefício evidente — e ambos os grupos mantiveram redução da função motora no pós-operatório.
Esse bloqueio motor prolongado é justamente o ponto fraco recorrente das técnicas perineurais clássicas. O bloqueio do femoral, por exemplo, causa déficit motor no quadríceps com impacto direto na deambulação pós-operatória (Di Franco et al., 2023). Como alternativa, Di Franco et al. (2023) testaram substituir o femoral pelo bloqueio do obturador associado a safeno e isquiático em 30 cães: a necessidade de resgate com fentanil caiu significativamente frente ao grupo sem bloqueio do obturador, com eficácia analgésica semelhante entre os grupos — mas déficit deambulatório mantido em ambos.
É nesse contexto que o Gin & Tonic aparece como proposta mais recente. Otero et al. (2024) conduziram primeiro um estudo cadavérico comparando a técnica à abordagem parassacral do plexo lombossacro, com resultados indicando dessensibilização mais eficaz dos dermátomos cutâneos de todo o membro pélvico. Em seguida, um estudo piloto com 24 cães pré-medicados com acepromazina ou dexmedetomidina mostrou, na maioria dos animais, bloqueio sensitivo menos intenso associado a preservação das funções motoras — resultado promissor, mas que o próprio autor classifica como preliminar, com limitações que pedem confirmação em ensaios clínicos maiores.
Vale lembrar que os bloqueios de neuroeixo (peridural) continuam amplamente usados por exigirem pouco equipamento e se apoiarem em referência puramente anatômica — mas carregam risco de hematoma subdural, hipotensão, náusea e retenção urinária (McCally et al., 2015). As técnicas periféricas e interfasciais, incluindo o Gin & Tonic, surgem como alternativas mais seguras nesse quesito, ao custo de maior exigência técnica e de equipamento especializado.
Conclusão
Um bloqueio que preserve a função motora sem abrir mão da analgesia pode mudar o desfecho pós-operatório de cirurgias ortopédicas de membro pélvico, especialmente na TPLO — onde a deambulação precoce importa para a recuperação. Os estudos preliminares sobre o Gin & Tonic são promissores nesse sentido, mas ainda é cedo para tratá-lo como substituto definitivo dos bloqueios do isquiático, safeno-femoral e femoral cutâneo lateral: faltam ensaios clínicos prospectivos com amostras maiores para confirmar a real eficácia e a proteção motora observada nos estudos iniciais.
Referências
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- BOSCAN, Pedro; WENNOGLE, Sara. Evaluating femoral-sciatic nerve blocks, epidural analgesia, and no use of regional analgesia in dogs undergoing tibia-plateau-leveling-osteotomy. Journal of the American Animal Hospital Association, v. 52, n. 2, p. 102-108, 2016. DOI: 10.5326/JAAHA-MS-6278.
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- DYCE, K. M.; SACK, W. O.; WENSING, C. J. G. O sistema nervoso. In: Tratado de anatomia veterinária. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. cap. 8, p. 208-331.
- FEIDEN, Tainã et al. Bloqueio locorregional femoral, isquiático e cutâneo femoral lateral utilizando bupivacaína e dexametasona em cão submetido à osteotomia de nivelamento do platô tibial. Revista DELOS, v. 18, n. 67, p. 1-15, 2025. DOI: 10.55905/rdelosv18.n67-121.
- GRUBB, Tamara; LOBPRISE, Heidi. Local and regional anaesthesia in dogs and cats: descriptions of specific local and regional techniques (Part 2). Veterinary Medicine and Science, v. 6, n. 2, p. 218-234, 2020. DOI: 10.1002/vms3.218.
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- OTERO, Pablo E. et al. Ultrasound-guided caudal quadratus lumborum block combined with the greater ischiatic notch plane block as motor-protective analgesia for the pelvic limb in dogs. Veterinary Anaesthesia and Analgesia, v. 51, n. 1, p. 97-106, 2024. DOI: 10.1016/j.vaa.2023.11.001.
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- PORTELA, Diego A.; FUENSALIDA, Santiago E.; OTERO, Pablo E. Bloqueio dos nervos do membro pélvico no cão. In: Anestesia regional em animais de estimação. São Paulo: MedVet, 2018. cap. 3, p. 143-231.
- CERVANTES ZAPATA, María Alejandra et al. Avaliação da dexmedetomidina e da dexametasona como analgésicos adjuvantes no bloqueio dos nervos ciático e femoral com levobupivacaína para cirurgia de joelho em cães. Revista de Investigaciones Veterinarias del Perú, v. 34, n. 5, e24792, 2023. DOI: 10.15381/rivep.v34i5.24792.
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